A reeleição de Dilma Roussef, do PT, apesar de apertada, não deixou a presidente enfraquecida: neste último mandato, ela deve imitar Margareth Thatcher e governar em cima do Congresso, realizando a reforma política e dialogando com os diversos partidos a fim de conquistar um posicionamento positivo de todos. Essa é a opinião do cientista político Roberto Ribeiro Corrêa em uma avaliação sobre o balanço das eleições desse ano. Com mais de 40 anos dedicados à formação acadêmica, o Ribeiro é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e mestre em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro (IUPERJ), onde também fez seu doutorado em Ciência Política. Professor da UFPA, dedica-se hoje a pesquisas nas áreas de estudos eleitorais e partidários, gestão governamental, concepção de indicadores sociais e elaboração, análise e avaliação de projetos sociais e econômicos. Sobre a corrida para o governo do Estado, Roberto Ribeiro Corrêa é categorico: afirma que a pesquisa que projetou o candidato Helder Barbalho como vitorioso já no primeiro turno ao governo do Estado estava correta - e que a “reversão de expectativa” no segundo turno pode ter ocorrido após o “uso de alguns mecanismos que seriam impossíveis de serem detectados em qualquer pesquisa”. Confira entrevista cedida às repórteres Wal Sarges e Rita Soares: P: Observamos que depois do resultado das eleições houve uma espécie de divisão entre ricos e pobres: eleitores da Dilma e do Aécio. Isso é real ou apenas uma impressão? R: Não, é real. Desde 2010, isso vem se concretizando. Aqueles que são merecedores, por lei, dos programas de transferência de renda aparecem como pessoas que oneram a classe média alta e essa reage dessa maneira. R: Ao contrário. Eles “descurralizam”, “descabrestam” o voto. Isso aconteceu na Europa, nos Estados Unidos, em 1933, com Delano Roosevelt e aconteceu no Brasil com a chegada de Lula ao poder. R: É porque o pobre tem o voto orientado para o presente. Se eu sou pobre, não tenho o que levar para casa, e chego no dia da eleição me oferecem uma cesta básica etc, eu diria: “Me dá que eu levo. Eu voto em ti”. No momento em que se torna sistêmico. Eu recebo um cartãozinho e vou com toda a dignidade buscar meu dinheiro, levo para casa, coloco meus filhos na escola. Tenho tempo para ir trabalhar sem estar preocupado com os filhos eu acabo aumentando a renda, o que foi detectado pelo IBGE. E pior: essa geração dos filhos, netos dos que foram favorecidos pelo Bolsa Família despertam a ira da classe média, que vê a filha da empregada frequentando uma faculdade por causa do Prouni. Vê o marido da empregada chegar em casa com um carrinho ao ir buscá-la. Então, isso acaba dando aquela dor no peito pelo sucesso do outro. R: De um lado e de outro. Terrorismo faz parte do jogo político, quando existe conflito de interesses polarizados e isso foi feito quando a atriz global Regina Duarte apareceu dizendo que “eu tenho medo do que pode acontecer...” Não pode acontecer nada, porque o presidente entra e tem que fazer as coisas de acordo com as instituições. É a mesma coisa que inventaram aqui, que, se o Helder fosse eleito, ele ia dividir o Estado. Qual é o poder que o Helder tem para violar a constituição e dividir o Estado? A divisão do Estado do Pará e de qualquer outro Estado brasileiro que queira dividir terá que seguir um trâmite da Constituição para chegar a um plebiscito. Então, não pode. Esse terrorismo faz parte do marketing político. R: Não, significa um alerta: é necessário que a Dilma olhe para as insatisfações desse eleitorado. Porque uma parte desse eleitorado pobre e uma parte desse eleitorado rico também passaram pros lados contrários: teve rico que votou na Dilma e teve pobre que votou no Aécio. Há uma insatisfação principalmente pela imprevisibilidade da questão econômica. Então, ela tem que ver como vai administrar esse futuro, que está combinado a cultura de um jovem que chega em um individualismo exacerbado, provocado pelas redes sociais. Ele passa a saber que não tem segurança, que não tem transporte público, que a corrupção é muito grande no Brasil; que os gastos com a máquina estatal comprometem um gasto que poderia ser melhor investido, como na educação, saúde e transporte público. A Dilma terá que começar a responder muitas questões, como é o caso da reforma política, porque terá uma reação muito grande do Congresso. Nisso, ela terá que imitar a Margareth Thatcher: falar por cima do Congresso para chegar ao povo e mostrar esse sistema eleitoral e esse sistema de governo não dá mais para seguir adiante. Os sistemas de governo e eleitoral devem ser mudados para reduzir a corrupção, reduzir os gastos de campanha; reduzir os gastos exacerbados com loteamento no estado e, principalmente, a corrupção. R: Apesar de serem muitos partidos, ela tem a maioria. O número de partidos é uma característica da nossa legislação eleitoral, do voto uninominal e proporcional. P: Não fica mais difícil governar tendo todos esses partidos? R: Por isso eu digo que ela tem que governar por cima do Congresso. Como é o último mandato dela, ela pode dizer: “Olha, eles não estão colaborando”. No parlamentarismo, se o cara não colaborar, cai o governo e cai o Congresso. Volta todo mundo para as eleições. Então, a responsabilidade é estruturada pela lei, pelo sistema parlamentar. O presidencialismo, não. É dando que se recebe: você não me dá o ministério, mas eu te atrapalho, você não governa, porque o papel do Legislativo seria aprovar leis de interesse nacional. Mas não é isso que acontece. Eles só aprovam lei de interesse nacional se por traz do pano atenderem às suas reivindicações. Isso não significa que eles sejam corruptos. Eles são obrigados a agirem dessa forma. Porque o voto é neles, eles gastaram dinheiro. Compraram voto na campanha e têm que vender voto na legislatura. R: Isso é uma desculpa que a pessoa busca. A xenofobia não chega a ser racismo. É algo assim muito fraco. Diz respeito mais ao comportamento: as pessoas falam diferente, a comida dele é diferente. Mas não acredito que alguém vá sofrer alguma reação de agressividade. É uma minoria que sai com essas bobagens que escrevem nas redes sociais. A maioria dos paulistas, sulistas, etc. reconhece o direito do nordestino, do nortista e de outros de votarem. Tanto que o voto na Dilma aconteceu tanto de pessoas que vivem no Norte, Nordeste quanto no Sul e Sudeste, em menor proporção, mas aconteceu. R: Esse tipo de eleição como ocorreu na Paraíba e em outros Estados, em que houve uma reversão das expectativas, que foram comprovadas: o Helder ganharia em primeiro turno. Receio que isso tenha que ir para um terceiro turno judicial porque para mim estava ganho. Mas agora o professor Jatene vem dizer que o “eleitor comparou e votou”. Em uma semana? Em duas semanas? É muito difícil acreditar. Eu penso que houve um esforço muito grande do governo em usar programas... usar alguns mecanismos que é impossível qualquer pesquisa detectar. Volto a dizer: é só fazer um estudo a onde essa reversão ocorreu e verificar o nível de renda dessa população e com isso concluir que a orientação do eleitor para o imediato pode ter levado aqui, nesse mercado eleitoral de segundo turno, a máquina pública e o empresariado, que estava interessada nisso, a um tipo de campanha que não tem amparo legal. R: A grande imprensa não mente, porque ela está escrevendo para a alta burguesia. Então, quando ela diz que os mais pobres votam no PT, é porque há uma verdade, de que, com a repetição do jogo democrático, o eleitor aprenderá a escolher aquele que está mais próximo dos seu interesses coletivos. (Diário do Pará) |
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar