Quem trafega pela BR-010, que inicia no trevo de Santa Maria, tem uma falsa impressão de que a urbanização e o progresso já chegaram às localidades próximas. Mas quem entra pelas vicinais, ramais e até rodovias para chegar aos municípios do nordeste paraense percebe as mazelas e o sofrimento de um povo que apenas conta com a esperança de dias melhores.
Quem segue pela rodovia federal e dobra na margem esquerda no sentido Belém - Brasília, para entrar na PA-258, principal via de acesso a Irituia, começa a perceber a ausência de princípios básicos garantidos pela Constituição. A “Estrada da Laranja”, como é conhecida, encontra-se bem pavimentada, mas graças a um projeto de urbanização com iniciativa privada. Ela corta a cidade, que apresenta apenas o seu centro pavimentado.
Nos locais mais afastados, a situação é dramática. Sem asfalto, saneamento básico, hospitais e delegacia, a população que mora no Lurdelândia, maior bairro do município, ainda tem esperança de viver em um “Pará para todos”. Com seis filhos e cinco netos, a viúva Edinalza Soares mora em uma pequena casa, localizada na rua da Paz. Impedida por um problema de saúde na visão, a doméstica não pode trabalhar. Ela tenta sustentar toda sua família com a pensão deixada por seu marido, mas lamenta a realidade.
“Aqui no bairro nada presta. Não temos água tratada nem iluminação. Aqui vivemos em uma escuridão total. Se as pessoas não colocarem nas frentes das suas casas um poste, ficam no escuro. Vivemos em um abandono. Não temos asfalto nem esgoto. Estamos cercados pelo mato. Quem quiser ir a uma delegacia aqui não encontra, pois não temos. Minha filha já foi roubada por traficantes”, protesta a chefe de família.
Edinalza Soares mora numa viela esburacada, chamada Rua da Paz. “Aqui vivemos com medo e por isso vamos dormir cedo. Moramos na rua da Paz, mas não temos paz nenhuma”, lamenta.
SEM ATENDIMENTO
A falta de atendimento médico também é uma das principais dificuldades enfrentadas pela família de Edinalza. Ela espera há mais de quatro anos para fazer uma cirurgia no olho esquerdo. Porém, até hoje ela desconhece o diagnóstico da enfermidade. “Aqui eu não consegui atendimento. Fui a Belém e o médico disse que eu precisava ser operada, mas que não tinha como fazer aqui no Pará, só em São Paulo. Eles me pediram R$ 4 mil para fazer e como eu não tenho esse dinheiro, vou ficar com minha vista assim. Aqui eles não fizeram nem o exame para saber o que eu tenho de verdade”, desabafa.
A ausência de hospitais também afeta a vida da dona de casa Cíntia de Lima, 25 anos, que mora na rua São Benedito, no mesmo bairro. Devido à falta de tratamento de água, ela sofre com dores no estômago. “Nossa água aqui é canalizada, mas não tratada. De tudo pode encontrar no poço. Até cabeça de prego já encontramos e as crianças têm que tomar essa água. Já tive muita dor no estômago por isso”.
Na busca por um tratamento, a dona de casa procurou o posto de saúde, mas até hoje não conseguiu. “Já fui tentar fazer os exames. Marcam para um dia, marcam para outro e nunca fazem. Se aqui alguém quiser fazer algum tratamento deve ir para Belém. Desde o dia 23 de abril eles marcaram e até hoje nada. Também tomo remédio, que deveriam nos dar, mas tem meses que não tem. Compro do meu próprio dinheiro”, lamenta Cíntia.
OBRA DE ESCOLA SEGUE ABANDONADA EM IRITUIA
Com os três filhos desempregados, o trabalhador rural Adalberto Ribeiro, de 50 anos, questiona a falta de investimentos para geração de empregos e renda. No ano passado, uma escola profissionalizante começou a ser construída no bairro, mas, apesar das propagandas do atual governo, as obras estão paralisadas. “Nós até tivemos uma alegria quando disseram que iam fazer a escola. Aqui os jovens estão em busca de um futuro melhor, mas não têm para onde ir. Meus filhos iam frequentar essa escola, mas quando as obras vão voltar, isso não sabemos. O povo quer mudança de verdade”, afirma.
O programa “Pacto pela Educação”, do governo do Estado, diz ter como objetivo gerar 16 mil novas vagas na rede pública, com a construção de 36 novas escolas e mais 400 salas de aula em todo o Estado. Foi investido o valor superior de R$ 120 milhões, resultado de uma parceria com governo federal, via Ministério da Educação (MEC) e estadual, por meio da Secretaria de Educação (Seduc). Entretanto, em Irituia, resta apenas o sonho da população em ver as obras continuarem.
A distância da capital para Irituia é de aproximadamente 124Km, o que corresponde 2h. Reflexo da falta de políticas públicas que contemplassem de fato a população do município, no segundo turno das Eleições 2014, o candidato da oposição, Helder Barbalho, foi o vencedor. Ele teve 9.576 votos, o equivalente a 53,73% dos votos válidos, num recado bem claro a Simão Jatene de que, pelo menos ali naquela cidade, não sentiam qualquer sinal de confiança no governador.
APENAS PÓ E TERRA BATIDA EM IPIXUNA
Percorrendo mais 90 quilômetros, chega-se a Ipixuna do Pará, que também sofre com a omissão do governo estadual. Inconformada, a população demonstrou a sua insatisfação nas urnas, dizendo não à atual gestão. Estradas não concluídas, falta investimentos nas áreas de segurança e educação, obras paralisadas - além de asfalto, que até hoje a comunidade espera: este é o retrato do abandono.
De acordo com o último Censo do IBGE, Ipixuna do Pará tem 56 mil habitantes. Porém, há apenas 500 vagas no ensino médio. Na educação, que era para ser de responsabilidade do Estado, é a prefeitura quem arca com as despesas. “Para que os alunos da zona rural tenham acesso à escola é a prefeitura que fornece o transporte a eles e muitas vezes até merenda, já que o governo do Estado não manda recurso. Temos um custo hoje de 300 mil reais só com transporte, que o município banca. Nós temos uma escola aqui que fica a 600 quilômetros, em Aparecida, e quem banca lá é o município de Goianésia com Tailândia”, informou o prefeito de Ipixuna do Pará, Salvador Chamon.
O prefeito aponta que no município há uma carência de vagas nas escolas, algo que está alheio à sua competência. “Antes do meu governo, saiu um edital que na escola do Estado, bem ao lado, seria construído um complexo de esporte. Mas o projeto foi esquecido, sendo que foi deixado o recurso pela ex-governadora Ana Júlia. Hoje o terreno está totalmente abandonado”, explica Chamon.
MÍNGUA POR ASFALTO
A estradas e ruas do município também são alvo do descaso do Estado. De acordo com a prefeitura, a atual gestão estadual disse ter dado cinco quilômetros de asfalto, recurso que até hoje a população que vive às margens da poeira espera ansiosamente. “O governo do Estado colocou para cá 5 quilômetros de asfalto, mas até hoje nada chegou para essa região e não foi concluído. A última vez que fui lá falei com o Jatene e perguntei do asfalto. Ele pediu desculpas, ligou para o secretário e disse que seria mandado fazer, mas até agora nada. É bem clara a questão política aqui, o governo é PSDB e somos PT”, diz Salvador.
Ainda conforme o prefeito, as obras anunciadas de pavimentação e infraestrutura de rodovias e estradas no município, não são viabilizadas devido ao excesso de politicagem do atual governo. “Atualmente, está sendo construída uma estrada que liga Ipixuna do Pará a Tomé-Açu, mas não recebemos dinheiro nenhum do Estado. A obra é de iniciativa municipal. Hoje, com o que foi construído na minha gestão, temos mais de 500 quilômetros de estradas vicinais feitas apenas com recursos do município”, completa o prefeito.
A família do entregador de gás Márcio Lemos Teixeira mora na rua E, no bairro João Paulo, região periférica de Ipixuna. Diariamente, Márcio, sua esposa e seus dois filhos são obrigados a viver às margens de uma via sem qualquer tipo de pavimentação e infraestrutura. O asfalto e urbanização são vistos apenas do alto do morro, onde quem vive lá em cima sonha com a mudança que parece estar além das colinas e bem distante da realidade. Na pequena rua de terra batida, dependendo das condições climáticas, há duas precárias condições: lama e a poeira.
Diante das precariedades, Márcio desabafa. “Os políticos vêm aqui só pedir voto. Tem vários anos que moro aqui e nunca vimos asfalto nesta rua. Se chover, fica um lamaçal e, se fizer sol, temos que comer poeira. Isso é um absurdo. As crianças ficam doentes no meio dessa terra toda. Queremos o asfalto tão falado e prometido”.
(Diário do Pará)
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