plus
plus

Edição do dia

Leia a edição completa grátis
Edição do Dia
Previsão do Tempo 32°
cotação atual R$


home
NOTÍCIAS PARÁ

Igualdade social é caminho para diminuir violência

Explicar os mecanismos que provocam a violência, fora do senso comum. Esse é um dos desafios de quem precisa entender e repassar conhecimento a partir das relações sociais. É o caso do professor Romero Ximenes. Graduado em História pela Universidade Feder

twitter Google News

Explicar os mecanismos que provocam a violência, fora do senso comum. Esse é um dos desafios de quem precisa entender e repassar conhecimento a partir das relações sociais. É o caso do professor Romero Ximenes. Graduado em História pela Universidade Federal do Pará, com mestrado em Ciências Sociais - Antropologia Social, pela mesma universidade, e doutorado em Ciências Sociais - Antropologia Social, Romero se notabilizou como um estudioso da estrutura do Estado do Pará e sua sociedade. Nesta entrevista ao DIÁRIO DO PARÁ, o professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UFPA, explica o que tem motivado o crescimento da violência e da insegurança em Belém e todo o Estado, a inoperância do aparelho estatal e a criminalização dos jovens, que contribuem para episódios como a recente chacina de pessoas ocorrida na capital, a partir da morte de um policial.

P: Qual a explicação para que a violência no Estado do Pará tenha explodido?. É possível encontrar a causa ou as causas dessa violência exacerbada no Estado e em Belém, especificamente?

R: O problema da violência é exatamente um problema de definição. O sentimento popular é pensar que violência é tomar o telefone de alguém na rua com o revólver na cabeça. E violência é uma coisa muito mais ampla e complexa. Não é um problema policial; é um problema que passa pela pobreza da maioria. Você sabia que 62% da população de Belém tem renda familiar abaixo de dois salários mínimos? Então, Belém é uma bomba-relógio social. Quando é dividido dois salários por cinco, seis pessoas ou mais, você vê a indigência que é a nossa cidade. Mas, a pobreza é um tabu: Ninguém se diz pobre. As pessoas recusam a pobreza, tanto pessoal e familiar, quanto a regional. O Pará é um estado extremamente pobre, do ponto de vista econômico. Olhe o Produto Interno Bruto do Estado, é alinhado junto com outros estados como Paraíba, Ceará. Então, no Pará, as pessoas confundem a exuberância da natureza com riqueza. As ofertas da natureza, a floresta, os peixes no rio e no mar, o minério debaixo da terra, isso não é riqueza, isto é possibilidade de riqueza potencial.

P: Essa pobreza extrema gera o aumento de outros crimes, como roubo, furto ou latrocínio?

R: O que acontece hoje é que há uma ânsia consumista em escala mundial. Temos que ter uma roupa para cada situação em especial, enquanto que há 40 ou 50 anos atrás quem tinha um fogão, geladeira, liquidificador era tido como um rico. Então, quem tinha uma motocicleta, um automóvel era o rico do bairro ou da rua. Hoje isso é elementar. Todo mundo tem. Na baixada, na favela...

P: Mas isso não é bom?

R: É bom, mas as pessoas querem muito mais. O problema é que o consumo é desenfreado. Porque as pessoas nunca estão abastecidas. Se sentem em um permanente estado de escassez. É uma angústia do consumo. Por exemplo: eu comprei um carro zero, mas era 1.0. É só um transporte, mas é uma porcaria, eu quero é um carrão. Um menino de periferia ele quer um tênis de marca, um jeans de marca, a motoca ou a bicicleta, quer comer o Big Mac, quer passear com a namorada, quer ir à praia. Mas se a família tem menos de dois salários mínimos de renda não dá, não compra nem o tênis. Então, na sociedade consumista, você só é feliz se consumir. Um jovem que não tiver jeans, camiseta, os adereços que compõem a fantasia de jovem ele não existe socialmente. Ele está fora da turma. Nem idade conta mais. Você pode ser velho com 18 se não consumir esses serviços. Ser jovem não é mais um dado cronológico, mas um padrão de consumo, de bens e de serviços. Se você não tem acesso a isso, irá buscar isso por qualquer que seja a via, pela via normal ou pela delinquência.

P: O senhor acredita que o problema da violência não se resolve com investimentos na segurança?

R: Não. A segurança é um ingrediente, enquanto que a violência é um fenômeno muito mais amplo. Em Sociologia, em Antropologia, em ciência política se estuda isso. E um grande autor para reconhecer isso é Pierre Bourdieu, que dizia que “a moral tem um preço; a moral tem um custo”. O preço da moral é a satisfação das pessoas. Se eu estou abastecido, alimentado, vestido, nutrido, habitando bem, a minha disposição para a delinquência é muito menor. Se eu estou miserável, faminto, o instinto animal me empurra para a delinquência. Então, a moral não é uma coisa natural do homem; é uma construção. E essa construção tem que ter condição e possibilidade.

P: O senhor não avalia que em Belém, a violência extrapolou as questões sociais e já está em um nível que demanda repressão do Estado?
R: Sim, mas o Estado reprime e mata a torto e a direito. A violência parte do Estado, parte da polícia, da milícia privada, da vigilância privada e parte dos grupos de linchamento organizados da periferia de Belém. Não pense que na periferia de Belém não tem grupos de homens jovens organizados para limpar rua dos delinquentes. Se reúnem, matam e liquidam. Todos os dias são relatados nos jornais. Tem uma pesquisa que estou orientando de uma aluna que mostra que a sensação popular é que os menores infratores não recebem punição devida e por isso continua reproduzindo a violência. Mentira. Eles estão sendo exterminados. Entre a primeira detenção e a morte, o delinquente juvenil tem menos de dois anos e meio de vida útil. Eles não ficam impunes. As casas de recolhimento de menores estão abarrotadas e lá dentro recebem tratamento rude e agressivo.

P: Na sua opinião, o que caberia ao poder público fazer nessa situação?

R: Promover o desenvolvimento social, ou seja, o desenvolvimento da economia para gerar renda, distribuição de renda. Não pode haver pais com miséria. Inclusive a corrupção política no Brasil só acaba se a miséria acabar. O campo da corrupção política está no campo do miserável que cobra o apoio em troca de uma receita de óculos, de uma bicicleta, de telha para cobrir um barraquinho que chove mais dentro do que fora. Então, a corrupção política teria acabada se o cidadão tivesse o mínimo para viver, o mínimo para uma existência humana.

P: Umas das declarações que foram dadas essa semana pelo Governo é de que as pessoas deveriam ficar mais em casa, evitar aglomeração. Isso não é reconhecer a falência do Estado?

R: É. O Estado, sob o ponto de vista da segurança pública, enquanto quiser resolver com uma questão policial, ele vai perder sempre. Se o governo insistir no problema da violência como uma questão policial, vai perder sempre. Ele está indo pelo caminho errado. Existem outros caminhos mais factíveis: política habitacional, política educacional, distribuição de renda. No país, quando se faz um programa de emergência contra a miséria, que é o Bolsa Família, acontece uma campanha contra o programa. As pessoas dizem que vai viciar, vai gerar preguiçosos. Dizem ainda que é clientelismo. Quando sai o resultado, eles dizem que são os miseráveis que elegeram a presidente da República, miserável não conta. É como se dissessem que miserável deve morrer.

P: Quando falamos da violência no Pará ou da delinquência, em geral, as autoridades falam que isso é uma questão mundial, o mundo está ficando cada vez mais violento. Passa a impressão de que não tem jeito, como se não tivesse mais o que fazer...

R: Tem o que fazer, sim. Primeiro, a autoridade precisa saber o que é violência. O salário mínimo para a família viver é uma violência institucionalizada. A pessoa miserável não tem o que perder. É preciso criar uma população que tenha o que perder. Porque eu vou assaltar na rua um simples celular que custa R$ 200 reais se eu tenho muito a perder, como casa, família, filho, emprego, transporte. Como colocaria em risco em troca de um aparelho de celular? Então, enquanto a maioria for pobre e miserável não há possibilidade disto acontecer.

Temos ainda a violência que perturba quem tem o que perder. São os crimes contra a propriedade. O que nos assusta? Tem um caixa eletrônico, e alguém detona o caixa eletrônico. O banco não se importa, porque ele tem seguro e não gasta com vigilância. A empresa seguradora ressarce o dano. Então, essa violência que aparece é a violência menor, que encobre a violência institucionalizada: concentração de renda, não acesso à saúde e outros serviços. Mas isso mexe com as estruturas dos dominantes. E nesse aspecto não interessa falar dessa. Então, se imagina que a polícia pode resolver. Se a própria polícia é vítima da indigência. Onde é que mora um soldado da PM? Na periferia miserável, onde ele é vizinho do bandido. O bandido sabe da rotina dele e quando quer eliminá-lo, é a coisa mais fácil. Então, um policial é vítima da pobreza. E acontece que a polícia mal paga é polícia que se paga. Então, ela começa a se colocar a serviço do crime ou a vender clandestinamente a sua proteção. Esse tipo de polícia mal paga, sem autoestima. ela tem um interesse que a criminalidade aumente, porque ela se torna mais importante. A tranquilidade de todo mundo depende de o policial dizer qual é a gorjeta para ele fazer ronda na frente de comércios particulares. Temos que pagar para termos tranquilidade e quanto mais a criminalidade avança é melhor para a empresa de vigilância, é melhor para a indústria de câmera, grades, cadeados, de segredo, de arma. Há uma economia ligada a criminalidade.

P: Qual a leitura que o senhor faz sobre o recente episódio da morte de um policial militar que pode ter tido onze mortes sequenciais?

R: Nesse caso, em que o policial é assassinado e em seguida ocorre uma execução coletiva pública e a Polícia reage, indignada com a morte do colega, se apagou a linha divisória entre o Estado e a criminalidade. Se apagou a distinção entre a polícia e o bandido. E a sociedade interpretou que está em um vale-tudo. Todo mundo pode ser vítima, tanto a polícia quanto o bandido. Então, isso é que provocou o pânico. Ao lado da boataria divulgada nas redes sociais. É preciso pensar a rede social não como um lugar da verdade, mas o lugar da disseminação dos sentimentos mais baixos da sociedade. O preconceito, o racismo, o conservadorismo. O anonimato das redes sociais te permite chegar ao que as pessoas não diriam publicamente.

(Diário do Pará)

VEM SEGUIR OS CANAIS DO DOL!

Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.

Quer receber mais notícias como essa?

Cadastre seu email e comece o dia com as notícias selecionadas pelo nosso editor

Conteúdo Relacionado

0 Comentário(s)

plus

    Mais em Notícias Pará

    Leia mais notícias de Notícias Pará. Clique aqui!