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Icoaraci está na rota da arqueologia

“Nós fazemos pesquisas a partir dos vestígios arqueológicos achados sob a terra, mas estar aqui em contato com os artesãos é fascinante, uma fonte de informação sobre como poderia ser o processo de fabricação no passado”, diz o pesquisador chileno Manuel

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“Nós fazemos pesquisas a partir dos vestígios arqueológicos achados sob a terra, mas estar aqui em contato com os artesãos é fascinante, uma fonte de informação sobre como poderia ser o processo de fabricação no passado”, diz o pesquisador chileno Manuel Arroyo.

Junto com um grupo de 15 arqueólogos, Arroyo esteve em Icoaraci, para conhecer de perto a produção cerâmica com fortes influências indígenas e que há mais de 50 anos é desenvolvida ali. A excursão concluiu as atividades da primeira oficina internacional “Cerâmicas Arqueológicas da Amazônia”, realizada em novembro pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG).

Em Icoaraci, o legado de povos ancestrais da Amazônia é reinventado pelas mãos de artesãos de hoje. O distrito, situado a 20 km do centro de Belém, é um dos maiores polos de cerâmica marajoara e tapajônica do mundo. Além do atrativo turístico, o local tem grande interesse para cientistas que pesquisam a fonte de inspiração da produção ceramista atual.

Os artesãos fabricam vasos, urnas funerárias, pratos, jarros, entre tantos outros objetos inspirados em um passado encontrado em sítios arqueológicos no território amazônico.

A primeira parada do grupo foi uma casa de alvenaria e jardim amplo na passagem São Vicente de Paula, bairro do Paracuri. O endereço foi durante anos a morada e o local de trabalho de mestre Cardoso, um dos primeiros ceramistas da região a produzir peças nos estilos marajoara e tapajônico.

Inês Cardoso, esposa do falecido mestre, recebeu os pesquisadores na sala de estar, transformada em um misto de sala de exposição e loja, com as vitrines repletas de objetos com os grafismos e traços hoje conhecidos mundialmente.

Inês contou que o fascínio de seu marido tinha desde a infância pela cerâmica pré-histórica do Pará foi instigado por uma visita que ele fez à coleção arqueológica do Museu Goeldi, na década de 1960. Com o apoio da instituição, Raimundo Cardoso estudou o acervo até ser capaz de reproduzir com qualidade as peças de argila.

A habilidade e técnica, que o tornaram conhecido como mestre, foram ensinadas para outros artesãos da região que então transmitiram esse conhecimento de pais para filhos.

RECONHECIMENTO

A cerâmica dessa vertente aumentou exponencialmente a venda e reconhecimento dos artesãos, os alçando a mercados e lugares nunca antes imaginados por eles, como o Museu do Louvre, na França, onde os trabalhos de mestre Cardoso foram expostos.

A influência das culturas marajoara e tapajônica foi um ponto de virada na comunidade de ceramistas, estabelecida há mais de um século no Paracuri, de acordo com o ceramista e guia da excursão Del Almeida.

Del explica que a tradição edificada por mestre Cardoso, mestre Cabeludo e outros ceramistas de Icoaraci foi atingida com a proibição legal da presença de crianças em olarias, local onde são fabricadas as peças, no final da década de 1990.

O fato ocorreu após a denúncia da exploração e mutilação de trabalhadores menores de idade em olarias de tijolo em Abaetetuba, devido ao uso da maromba, um maquinário pesado e que se usado sem o devido cuidado pode causar graves acidentes, como a perda de membros.

A decisão judicial, segundo o ceramista, não considerou que os ateliês cerâmicos têm uma produção rústica, que dispensa esse tipo de instrumento, além do que o ensino do ofício de ceramista aos jovens nesse espaço era paralelo e sem prejuízos às atividades escolares.

Mesmo assim, todas as olarias foram enquadradas pela lei, correndo o risco de multas ou mesmo o fechamento de suas portas. Uma geração depois, os efeitos da mudança são sentidos na baixa renovação de pessoas dedicadas ao trabalho com a argila, especialmente na linha arqueológica.

Preocupados com a possibilidade de extinção da cultura cerâmica em Icoaraci, um grupo de artesãos criou, em 1996, o Liceu de Artes e Ofícios “Mestre Raimundo Cardoso”, uma escola de ensino fundamental e básico que agrega a educação do artesanato local, desde a sensibilização com a argila até a confecção de peças cerâmicas. Atualmente, o Liceu atende cerca de 2.300 estudantes, incluindo o projeto Educação de Jovens e Adultos (EJA).

APOIO

O Museu Goeldi, por meio dos setores de Antropologia e Museologia, é um dos apoiadores da iniciativa. Periodicamente, pesquisadores da instituição ministram oficinas de educação patrimonial no Liceu. O próximo passo dessa parceria, ainda em fase de elaboração, chama-se “Calçada da Memória”.

Idealizado pelo também professor do Liceu, Del Almeida, o projeto vai divulgar a história do bairro do Paracuri e, através dela, da cerâmica de Icoaraci. “A ideia é desenvolver escavações arqueológicas em uma das olarias mais antigas do bairro do Paracuri e, junto com dados da história oral coletadas com os antigos ceramistas, construir um ponto de referência dessa memória”, conta Helena Lima, arqueóloga do MPEG.

“Uma instalação vai ser montada na área do Liceu, referenciando essa tradição”.

Segundo a arqueóloga, durante o projeto, os estudantes do Liceu serão os protagonistas das atividades. “Nós (professores e pesquisadores) seremos apenas os facilitadores, o trabalho de fato vai ser desenvolvido pelos alunos, a pesquisa histórica, levantamento da história oral, as escavações arqueológicas”, diz Helena.

Para ela, ações como a “Calçada da Memória” são uma extensão natural do ofício de cientista. “Para que nós estamos fazendo ciência se não pra trabalhar junto com as comunidades e desenvolver propostas conjuntas para de fato melhorar a vida das pessoas? Queremos que a Arqueologia seja um caminho para isso aqui no Paracuri”, afirma.

SERVIÇO

Para mais informações, acesse o site do Portal de Plantas Medicinais e Fitoterapia em Atenção Integral à Saúde, pelo link:www.fitoterapicos.ufpa.br.

LEIA MAIS:

Projetos serão publicados em livro

(Diário do Pará com informações da UFPA)

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