Na Unidade de Saúde da Pedreira, localizada na avenida Pedro Miranda, a fila de espera para uma consulta com clínico geral e outros especialistas se forma no dia anterior, formada por quem quer conseguir uma tão disputada senha. Mesmo tendo que passar a madrugada na porta do posto, as pessoas não têm a garantia de que serão atendidas.
Às 4h15 de ontem, duas filas com dezenas de pessoas já estavam formadas na porta da unidade. A do lado direito, que dobrava na travessa Mauriti, era destinada a quem necessitava de uma consulta com um clínico geral. Quem estava na fila do lado esquerdo buscava atendimento com um médico especialista.
Após sentir muitas dores no corpo devido a um problema de reumatismo, a cozinheira Ray Lopes saiu de sua casa na tarde de domingo para tentar uma senha de atendimento no local.
“Eu moro perto daqui, na Barão, mas tive que chegar ontem (domingo), para conseguir ser a primeira pessoa da fila, e pegar a senha. Sofro com essas dores no corpo todo há oito anos. E por ter que enfrentar problemas como a falta de médicos, eu não procurei antes. Mas agora a dor é tão forte que estou aqui”.
Apesar do tempo em que estava na fila, a consulta ainda não era garantida. “Esta é a segunda vez que venho aqui. Na primeira, cheguei cedo também e me consultei com um clínico geral. Ele disse que eu teria que ir com um reumatologista.
Quando eu fui com a moça do atendimento, ela riu e disse que era quase impossível, já que não tem e, quando fazem, é apenas um atendimento. Por isso tive que chegar tão cedo”.
Para tentar se sentir mais segura, Marta Conceição Ferreira, 51 anos, levou o marido para a fila. “É muito arriscado ficar sozinha aqui. Cheguei às 11h30 de casa para tentar pegar a senha de um clínico geral. Como já fui assaltada uma vez quando eu estava vindo de madrugada para cá, pedi ao meu esposo que me acompanhasse. É muito perigoso”.
SOFRIMENTO
A filha da dona de casa está há cerca de 15 dias com dores e febre. “Nossa filha mais velha tem 21 anos. Ela chora muito com dor de cabeça e nas costas. Já procuramos a urgência do Pronto Socorro do Guamá e a única coisa que fizeram foi passar uns remédios e aplicar injeção. Deixei de ir pra casa de uma idosa, que passo as noites de domingo com ela, pra estar aqui. O único dinheiro que tenho na semana é esse”, lamentou.
A Unidade da Pedreira não atende apenas pessoas do bairro. Na fila era possível ver pessoas de várias localidades. O aposentado Marcos Paulo Reis, de 72 anos, mora em Mosqueiro e teve que dormir na casa da irmã dele para tentar uma consulta.
“Desde o início da semana estou sentindo o corpo mole e umas dores no corpo. Como moro em Mosqueiro e o hospital de lá nunca tem médico, pedi para minha irmã para eu ficar na casa dela, no Jurunas. Cheguei aqui às 4h e vou contar com a sorte para pegar a senha hoje (ontem) e no máximo quarta-feira ser atendido”, explicou.
A vendedora Rosa Batista afirma que quem quer ter atendimento médico na região metropolitana deve estar preparado para padecer em filas. “Moro em Ananindeua, lá ninguém nem consegue a senha. Tenho que levar minha filha para ser consultada com um pediatra, já peguei muitas filas e não consegui em outros. Parece que aqui na Pedreira é o único que tem mais senhas e funcionários atenciosos. Quem mora em Belém ou em Ananindeua passa por isso”, reclamou.
Rosa também reclama que para chegar aos postos de madrugada é necessário gastar um dinheiro que poderia servir para as despesas. “Como estou com ela, que tem só quatro anos, eu preferi pagar um táxi. Pois, além de não ter ônibus, o perigo que corremos é enorme. Como moro longe, tive que pagar 45 reais de táxi, isso porque o motorista é nosso conhecido e cobrou bem menos. Esse dinheiro poderia ser usado para comprar os remédios”.
O casal Diana e Luiz Lima se preparou para amanhecer o dia na porta da unidade e levou cadeiras de praia, toalhas de banho e uma garrafa de café.
“Nós já estamos até acostumados a passar por isso. Como já viemos outras vezes, hoje estamos preparados. Trouxe até uma toalha para colocar nas pernas e um cafezinho para enganar o frio. O povo sofre muito. O pior é que nem todos que estão aqui vão ser atendidos. Às vezes distribuem até 60 senhas e as pessoas voltam pra casa sem a senha, sem nada” contou Diana.
SESPA
Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) afirmou que a Unidade da Pedreira recebe pacientes de todos os bairros, fazendo com que a demanda diária por atendimento seja superior a sua capacidade instalada.
“A respeito do atendimento no ambulatório, a Sespa ainda informa que as fichas para as consultas disponibilizadas na Unidade de Saúde da Pedreira são distribuídas nos turnos da manhã e tarde. São 16 fichas para cada 15 médicos clínicos que atendem no local. O número de senhas é preconizado pelo Ministério da Saúde. A medida também tem como objetivo evitar filas no decorrer da manhã e no início da tarde. A Secretaria ressalta ainda que o atendimento em urgência é feito durante 24 horas por dia”.
(Diário do Pará)
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