Os fatos que deram suporte à ação penal do MP foram apurados no decorrer da investigação conhecida por “Operação Falso Patuá”. M.J.P.C declarou no depoimento à polícia que o autor da tentativa de homicídio contra ele foram Amilton, irmão de ‘Pé de Boto”, Rafael, os soldados da PM Silva e Ivan, além de um terceiro que identificou como cabo Hélio. O soldado Ivan é irmão do cabo Hélio. A vítima informou que os suspeitos desceram de uma camionete L200 preta e de um Celta Prata, com metralhadoras nas mãos, mas o cabo Hélio foi quem deu entre seis e sete tiros em sua direção.
“Os comentários em Igarapé-Miri eram de que o prefeito, com o extermínio de pessoas, pretendia reduzir a violência no município, uma das promessas de campanha eleitoral".
Cabo Hélio era segurança do prefeito. O sobrevivente conta que fazia parte de uma lista de nomes de jovens que deveriam ser mortos no município pelo “bem da segurança pública”, de acordo com declarações do prefeito e dos assassinos por ele comandados. M.J.PC, ainda no depoimento, apontou alguns casos de pessoas que já teriam sido mortas por ação da organização criminosa.
Os nomes são os seguintes: Ledilson Farias de Souza, vulgo “Maluco da Calça”, que morava na rua Lauro Sodré. Ele foi morto com disparos de arma de fogo pelo cabo Hélio e seu corpo foi encontrado jogado no ramal Mocajuteua, no sítio do secretário Ruzol; um homem de prenome Manoel; Mauro, vulgo “Rato d’Água”, posteriormente identificado como Mauro de Jesus Corrêa de Souza; Alisson, vulgo “Dente” ; Marco, vulgo “Cacola”; Denildo, vulgo “Macaco”; Alexandre, vulgo “Cara de Gato”; Deones Maciel Charles, o “Maguila”; Francinei Correia da Conceição, o “Prateado”; “Buim”; “Boioioca”; Hugo Vinicius Alves da Silva, o “Hugo”, morto a tiros pelo soldado da Polícia Militar Matias; e ainda uma pessoa não identificada e encontrada morta na estrada de Igarapé-Miri, no ramal Mucajateua.
LISTA
O sobrevivente relatou que o secretário Ruzol era o responsável pela confecção da lista dos que deveriam morrer, juntamente com seus filhos Rafael e “Gordo”, que frequentemente andavam armados. O prefeito é padrinho de batismo de Rafael. Diante das graves denúncias relatadas por M.J.P.C, a polícia fez o cruzamento de informações entre as mortes citadas no depoimento e os relatórios oficiais Secretaria de Segurança Pública do Pará, principalmente o relatório da Secretaria Adjunta de Inteligência e Análise Criminal (Siac), juntado ao processo.
O relatório da Siac, que tem como referência o período de 2010 a agosto de 2013, aponta um aumento, entre 2011 e 2012, de 50% no número de homicídios, e, somente no período de 2012 a 2013 - início da gestão de “Pé de Boto”, um acréscimo de 25% nas mortes. Os números do relatório para os crimes em Igarapé-Miri apontam ainda que 20% dos homicídios foram perpetrados por um indivíduo com arma de fogo, caminhando a pé pela via pública, enquanto outros 75% das mortes ocorreram por uso de arma de fogo.
Outro detalhe: 95% das vítimas eram do sexo masculino e 60% tinha até 34 anos. O cenário deixa evidente o extermínio de jovens naquele município, sendo que 55% dos mortos possuíam antecedentes criminais, informação que converge com a suposta intenção do prefeito de “limpar” a cidade. Os números, segundo o relatório do Siac, fizeram Igarapé-Miri subir para o 4º lugar no ranking da violência da 4ª Região Integrada de Segurança Pública, ficando abaixo apenas de Moju, Abaetetuba e Barcarena. A diferença para o primeiro lugar foi de três mortes, embora Igarapé-Miri seja menor que as três outras cidades.
(Diário do Pará)
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