Eles deveriam ser os primeiros a ter interesse em esclarecer as atividades das organizações do terceiro setor da qual fazem parte (ONGs, associações, fundações), bem como o uso de recursos públicos que foram destinados a elas, mas, na prática, dirigentes e ex-dirigentes de entidades, sob suspeita de servirem apenas como fachada para as atividades ilegais do deputado federal Wladimir Costa, têm evitado se manifestar sobre o assunto.
Durante toda a semana passada, o DIÁRIO tentou contato com servidores de Wladimir Costa, ex-servidores e cabos eleitorais que aparecem em registros públicos como responsáveis ou ex-responsáveis por ONGs, mas a resposta foi, na maioria das vezes, a de que não há nada a declarar.
O caso, contudo, está sendo investigado pelo Ministério Público Federal e Ministério Público Estadual e muitos já estão sendo chamados para prestar depoimentos em processos que podem resultar em ações criminais contra servidores públicos e políticos.
‘NADA A DECLARAR’
Um dos contatos feitos pelo DIÁRIO foi com Murilo dos Santos. Ele já foi ligado à Fundação Barcarena de Comunicação e Assistência Social, da qual faziam parte também Walter da Rocha Gonçalves e Ildefonso Augusto Lima Paes. No contato telefônico, Murilo Santos afirmou que não tem “nada a declarar” sobre o assunto.
Entre 2004 e 2010, a fundação que ele presidia recebeu R$ 566 mil dos cofres públicos - a maioria dos recursos era oriunda de emendas parlamentares e foi liberada via Ação Social do Palácio do Governo.
Em 2010, Murilo Santos coordenava a Rádio Jovem FM e também era o coordenador de campanha de Wladimir Costa na disputa à reeleição para a Câmara Federal. Chegou a ser denunciado por compra de votos no município de Itupiranga, mas acabou inocentado da ação na Justiça Eleitoral. Hoje, Murilo é responsável pela Rádio Princesa de Santarém, conforme atestam postagens feitas em sua página no Facebook. A rádio tem como diretor Waldecir Costa, irmão do deputado Wladimir Costa.
Outro diretor da Fundação Barcarena de Comunicação foi Ildefonso Augusto Lima Paes. Ele foi apresentado como secretário da entidade quando esta conseguiu a outorga de uma rádio comunitária. Ao DIÁRIO, Ildefonso confirma que fez parte da entidade, mas garante que se afastou em 2007. Indagado sobre convênios e a gestão financeira da entidade, afirmou não lembrar. “Já faz quase dez anos que estou fora”,
explicou.
Hoje, Ildefonso é assessor parlamentar de Wladimir Costa no município e diz não ter mais qualquer relação com a ONG. Sobre as relações do deputado com a entidade, garantiu que Wladimir Costa era apenas um apoiador, fazendo doações para ações como a distribuição de presentes na época do Natal.
DESVIOS
Ao lado do deputado Wladimir Costa, Ildefonso é investigado pela Procuradoria Geral da República em processo que apura possíveis desvios de recursos de convênios destinados ao Instituto Nossa Senhora de Nazaré de Educação, Esporte e Lazer de Barcarena. O caso corre em segredo de Justiça.
Apesar de afirmar ter se afastado das entidades investigadas em 2007 - quando oficialmente passou a atuar como assessor parlamentar do deputado Wladmir Costa -, Ildefonso é citado no Diário Oficial como presidente da ONG Instituto Nossa Senhora de Nazaré e, nessa condição, foi convocado pelo Tribunal de Contas do Estado a prestar esclarecimentos sobre um convênio entre a entidade e a Loteria do Estado do Pará (Loterpa) no valor de R$ 20 mil.
IRRITADO
Ao atender a um telefonema da reportagem do DIÁRIO, Walter da Rocha Gonçalves reclamou por estar sendo incomodado pela imprensa e desligou sem que uma pergunta chegasse a ser feita. Walter aparece como integrante da entidade Organização de Defesa dos Municípios Paraenses e é também um dos fornecedores do Gabinete de Wladimir Costa. Segundo documentos da Câmara, recebe mensalmente R$ 4,5 mil para manutenção do escritório do parlamentar no Estado.
Em documento de 2009, Walter aparecia como presidente da Associação de Difusão Comunitária Igarapé-Açu e, como tem ocorrido com a maioria das entidades ligadas ao deputado, também recebeu recursos do Estado por meio da Ação Social do Palácio dos Despachos. Um dos convênios teve valor de R$ 40 mil.
(Diário do Pará)
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