Festa, som alto, mulheres, amigos e bebidas. Um convite e tanto e... bem-vindo ao mundo do crack! Foi nesse ambiente que o menino de 14 anos, em questão de minutos, teve o primeiro contato com a droga. Numa festa em Altamira, interior do Pará, um dos “amigos” da escola o chamou para ir ao banheiro. A partir daí, o menor trilharia o caminho das pedras. Os ‘amigos’ disseram que seria bom. Ele arriscou. Cheirou. Parou no tempo. Ficou transtornado. Teve medo. Para quem assaltava desde os 12 anos, foi a primeira vez que se sentiu perseguido, não por policiais, mas pelos efeitos da droga.
Com o dinheiro dos assaltos, o adolescente esbanjava com roupas de marca, várias namoradas e o vício. “Numa noite, cheguei a gastar R$ 1.500. Eu me achava o rei, o cara”, conta. Foi detido cinco vezes por assalto. Em todas, foi liberado momentos depois de a mãe, cozinheira com mais de 50 anos, aparecer na delegacia para buscá-lo. “Eu tinha consciência de que seria livre. Era preso de manhã e à tarde saía. Quanto mais eu fazia, mais eu era respeitado.”
Aos 15 anos, o adolescente contou à mãe que era usuário de drogas e roubava. “Ela ficou em estado de choque. Eu não queria me internar, mas ela queria. Ela se ajoelhou aos meus pés e chorou. Isso mexeu comigo”, conta. A mãe pediu ajuda à imprensa, fórum de justiça e ao Conselho Tutelar de Altamira. Um ex-usuário viu a reportagem e entrou em contato com a família. Ele foi à casa do rapaz para conversar. O jovem mudou de ideia. Já estava disposto a se tratar.
Três dias antes de viajar, os “amigos” o convidaram para uma festa. Ele hesitou, porém não recusou o convite. Novamente, mergulhou nas drogas. Desistiu de buscar tratamento. Depois de consumir crack, chegou à sua casa. Um dos irmãos o segurou. Sob efeito da droga, pegou uma faca para matar o irmão. Quando percebeu o que faria, fugiu de casa.
Um empresário comovido com a situação decidiu custear o tratamento dele. “Me ligaram para perguntar se eu aceitava um jovem. Disse que, se ele quisesse tratamento, poderia mandar”, conta Luiz Veiga, diretor do Centro Nova Vida, local para tratamento de dependentes químicos em Ananindeua.
Policiais, bombeiros e conselheiros tutelares foram à casa do adolescente, algemaram e o levaram ao hospital do município, onde ficou 23 dias internado. Tentou fugir, porém foi capturado e, em seguida, encaminhado para o centro de reabilitação.
Em 31 de agosto, o adolescente deixou o Centro Nova Vida rumo a Santarém, onde mora com a irmã. O tratamento iniciado em 6 de maio surtiu efeito. Luiz Veiga conta que, no início, o jovem era indisciplinado e tentou fugir. Porém, com o passar do tempo, se adequou ao ambiente. Estudar, trabalhar e construir a própria família. Esses são os planos dele atualmente.
Hoje, a mãe do adolescente fala que tem um novo filho. “Agradeço a Deus, ao empresário e ao Veiga, que se dedica aos usuários. Nunca pensei em desistir do meu filho. Fiz uma promessa para Deus e Nossa Senhora de Nazaré, que se ele curasse meu filho, eu rasparia a minha cabeça. Cumpri com a minha promessa. Deus deu nova vida para ele. Ele nasceu de novo.”
Volta por cima é difícil e depende do apoio.
Vigilância permanente para escapar da recaída.
(Diário do Pará)
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