Belém fracassou e vem perdendo influência sobre o território nacional: faltando um ano para que complete o aniversário especial que marcará seus quatro séculos de existência, a cidade não tem o que comemorar. Além de ter o sistema de transporte público mais ultrapassado do país, sofre com a ocupação desordenada do espaço urbano e a concentração populacional promovida pelo crescimento imobiliário. Essa é a opinião do arquiteto e urbanista Flávio Nassar, hoje pró-reitor de relações internacionais da Universidade Federal do Pará. Ele conversou com o DIÁRIO em entrevista cedida às repórteres Carolina Menezes e Leidemar Oliveira. Confira:
P: Belém está prestes a completar 400 anos, mas ainda enfrenta antigos problemas estruturais que se agravam ao longo do tempo. O que levou a cidade a se afastar do conceito de uma grande metrópole?
R: Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que Belém foi fundada com um projeto de cidade maior do que qualquer outra. A monarquia portuguesa fundou Belém para ser a nova cidade de Cristo. Foi uma cidade planejada desde a data da sua fundação, para abrigar esse projeto de ser a nova cidade da Cristandade e do Império de Portugal, dominado pelo cristianismo. Hoje, Belém fracassou, assim como a maioria das cidades brasileiras, mas em nenhuma [o fracasso] foi tão grande como em Belém, porque nenhuma tinha um projeto tão grande de fundação como a nossa.
P: Em que sentido ela fracassou?
R: No sentido da perda de influência global. O indicador imbatível disso é o fato de Belém não ter sido sede da Copa. Belém começou o século XX como uma das cidades mais importantes do país pela vanguarda do urbanismo brasileiro, com iluminação elétrica e a gás, e no auge da produção cultural brasileira, com óperas, cinemas, grandes colecionadores de arte, mas terminou esse mesmo século fora do maior evento de repercussão nacional, onde muitas cidades brasileiras se projetaram e receberam importantes investimentos para o desenvolvimento de qualquer cidade. Belém era uma cidade cosmopolita ligada ao mundo. Antes havia grandes navios partindo para a Europa, com uma frequência enorme de estrangeiros. No período pombalino, a cidade fazia parte do sistema econômico mundial com a produção das drogas do sertão e de cacau que abastecia os cafés mais chiques da Europa. Hoje, não temos um grande aeroporto e não há porto articulando com os grandes centros de exportação. Belém não é mais uma cidade global porque perdeu a referência de uma grande cidade. A capital da Amazônia é Manaus.
P: A que se deve esse fracasso?
R: À interferência dos militares, em 1964, que concentrou seu projeto geopolítico em Manaus. Zona Franca, aeroporto, tudo se concentra em Manaus. A partir daí, Belém não consegue criar uma alternativa e não consegue se inserir dentro desse novo mundo globalizado.
P: Por que não se conseguiu dar respostas a essas perdas?
R: Primeiro por uma razão macropolítica. A política nacional tirou os privilégios de Belém, apontando os investimentos para Manaus. A matriz de transporte escolhida pelo governo militar foi privilegiar o transporte rodoviário, foi deixando Belém de fora. Belém, que era a conexão da floresta com o mundo, fazia essa conexão por meio do porto. Quando muda-se em modal de navio para caminhão, Belém passa a perder sua importância. Essa perda é um problema de todas as elites paraenses, que não conseguiram protestar contra essa situação. Todo mundo assistiu a tudo isso pacificamente. Apesar disso, Belém continua sendo a principal cidade amazônica em produção artística, cultural e acadêmica. A Universidade Federal do Pará é a maior da Amazônia Continental, que mais tem doutores, por exemplo. Em termos de diversidade cultural, nunca perdeu a primazia.
P: É possível reverter esse quadro e fazer a cidade voltar a ter influência no restante do país?
R: Teoricamente sim, pela grande riqueza intelectual da cidade. Belém conta com essa tradição, de uma cidade que nasceu independente do Brasil. Belém tem o maior palácio administrativo do Brasil, que é o Antônio Lemos, tem a maior catedral do império português e uma história colonial incrível, marcada por grandes personagens. Por tudo isso não se conseguiu derrubá-la. Belém é uma senhora decadente, mas que tem um cabedal cultural. Acho que o aniversário de 400 anos de Belém é um ensejo para que olhemos o nosso passado como um projeto momentâneo de um governo, mas que passou. A nossa história deve ser um estímulo para que possamos construir uma nova Belém, uma cidade justa, humana e fraterna.
P: Na sua avaliação, quais são os grandes problemas estruturais da cidade?
R: O transporte público é o maior de todos. Ainda estamos falando em BRT, mas Belém tem que ter um transporte de alta velocidade e de massa, como um metrô de superfície, a exemplo da maioria das grandes cidades. Este transporte pode reestruturar a cidade e promover alguma justiça social. Pode também reconstruir o espaço urbano, que ainda é concentrado na capital. O mercado imobiliário de Belém tem um grande potencial, mas não foi direcionado para conquistar novos espaços. Ao contrário, criou uma superconcentração populacional em apenas alguns espaços, quando era para ser um mecanismo de expansão da cidade. Falta um pacto de vizinhança previsto na legislação. Criou-se uma hiperconcentração predial sem criar condições para o seu uso, como a falta de estacionamentos. Essa expansão, em vez de proporcionar melhoria da qualidade de vida, criou mais problemas. Belém parou no tempo.
P: Como é possível rever essa realidade?
R: Não há o que fazer, talvez só daqui a cem anos. Tem que aproveitar essas lições e repensar todo o espaço urbano. Não se pode esperar nenhum milagre, mas uma mudança na mentalidade, refletir sobre o papel de cada um no resgate da autoestima da cidade.
P: Qual seria o ponto de partida para resolver o problema urbanístico da cidade?
R: Melhorar o transporte público e torná-lo mais planejado e humano. Melhorar também o espaço, tornando-o melhor distribuído. Do ponto de vista urbanístico, essa foi a maior cegueira das administrações de Belém, porque nada foi feito para resolver o problema ao longo dos anos. O sistema de transporte de Belém é o mais atrasado do Brasil.
(Diário do Pará)
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