Manter viva a memória de Belém é tarefa de contadores de histórias, pesquisadores e escritores, como o paraense Walcyr Monteiro, de 75 anos. Autor de obras clássicas da literatura paraense, Walcyr já escreveu contos que são retratos de uma cidade que ficou no tempo.
“O cenário de Belém era completamente diferente. Hoje, a cidade é mais iluminada e naquela época faltava energia [elétrica] constantemente”, diz Walcyr. “Então apareciam os personagens como matinta pereira, lobisomen, porca do Reduto. Esses personagens saíram de área, você não ouve mais falar dessas histórias.”
A cidade de Belém durante a infância do escritor - e a de muitos paraenses que viveram a primeira metade do século XX - era um local onde quase não havia ruas asfaltadas. “Havia a Estrada de Ferro de Bragança. Era um lugar bem mais arborizado, mais fresco, com muitas mangueiras. As ruas eram de chão batido ou de paralelepípedos”, relembra.
Walcyr lembra também que havia mais cinemas - Cinema Nazaré, Cinema Moderno, Cinema Iracema, Cine Palácio etc. - e que também serviam de palco para peças teatrais e apresentações de música e dança.
Também na memória do escritor Belém era tranquila, quase sem violência, e era um escândalo quando acontecia um homicídio. “Naquela época, a violência era dos ladrões de galinha. Havia também batedores de carteira nos ônibus, mas eles tiravam o dinheiro e colocavam a carteira de volta: eram conhecidos como luvas de seda”, comenta.

Olympia é o cinema mais antigo do Brasil ainda em funcionamento. (Foto: Reprodução)
O artista plástico Branco de Melo, de 91 anos, diz ter aproveitado bastante a juventude antes da virada da primeira metade do século XX. “Dá muita saudade daquela época. Quem dera voltasse a gente voltasse, a gente era feliz e não sabia. Hoje em dia é difícil até para sair de casa”, comenta.
Branco lembra que a infância coincidiu com o final da influência da Belle Époque e muitos costumes, como a vestimenta. “Ainda dava para sentir o cheiro da Belle Époque. As roupas ainda obedeciam muitos temas que estavam na moda em Paris.”
Prédios como o Grande Hotel - com fachada para a avenida Presidente Vargas - eram exemplares da influência art nouveau francesa na cidade. “Era uma obra de arte. Era a pura França em Belém. As portas majestosas, os grandes vitrais. Foi o marco do art nouveau em Belém”, afirma Branco.
Bares como Corcovado e o Café Manduca, no bairro do Comércio, reuniam diversos escritores e políticos do período. “Depois das 17h, as mesas eram cheias. Era o point das pessoas que faziam arte”, conta.
Os carnavais de rua também tinham um formato completamente diferente, como “os assustados”. Na tradição, grupos de jovens e famílias de cada bairro escolhiam uma casa para realizar a celebração.
Sem avisar o dono da casa escolhida, preparavam doces e salgadinhos, além dos adereços e fantasias. Os foliões contratavam músicos e, em determinado momento do dia, todos batiam à porta da casa com a banda de música e o carnaval estava pronto.
“Daí a pessoa tomava aquele susto”, recorda Branco. “Belém vivia numa calma. A vida era muito devagar, as coisas corriam muito devagar. Até o bonde era muito devagar. Era uma época boa. Muito mudou, mas é o preço do progresso. A vida não pode parar.”
Veja mais imagens de Belém que ficou na memória:
Detalhes da Rua dos Tamoios, no centro de Belém. (Foto: Reprodução)
(Hélio Granado/DOL)
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