A reclassificação do canabidiol, uma das substâncias químicas encontradas na folha da maconha, como medicamento controlado, e não proibida, como era antes, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), na semana passada, pode significar uma esperança para pessoas que sofrem de epilepsia e outras situações neurológicas.
Para o farmacêutico e doutor em Genética e Biologia Molecular, Ricardo Vieira, o tratamento à base de canabidiol pode ser a saída para quem não consegue resultados eficazes com os medicamentos convencionais, sem contar que, com o reconhecimento do uso da droga por parte da Anvisa, a tendência é de que surjam mais estudos sobre as propriedades da erva, pouco estudada atualmente por se considerada uma droga ilícita.
A reclassificação da Anvisa também vai facilitar a vida de quem já tem autorização legal para fazer uso da substância: se antes a demora para conseguir a autorização da importação -não existem laboratórios que produzam, legalmente, canabidiol puro no Brasil - chegava a ser de seis meses, agora não deve passar de quatro dias.
PORTARIA
“Pela portaria 344/1999, que regulamenta e define proibições de uso e comercialização de substâncias químicas no Brasil, e que vai de A a F, o canabidiol estava no F1, junto da cocaína, da heroína, por exemplo.
Agora, como C1, ele está junto de anti-inflamatórios de venda controlada, como o Celebra. Sem contar que a autorização só valia por quatro meses, depois tinha que fazer tudo de novo: inscrever o médico e o paciente junto ao Conselho Federal de Farmácia e aguardar a autorização.
Agora essa autorização deve se estender por cerca de um ano”, adianta o médico.Para Vieira, a revisão da Anvisa pode reabrir o debate da proibição legal do cultivo da erva no Brasil para fins de estudo e fins medicinais.
“São pelo menos dez anos até que o medicamento deixe de ser considerado um tratamento experimental, e hoje o medicamento é importado porque ninguém o produz por aqui. É muito difícil conseguir o canabidiol puro, isolado das substâncias que causam efeitos psicotrópicos, de dependência e etc, “, diz.
“Ficamos na expectativa para que esse seja o primeiro passo para que as coisas mudem. Quanto mais estudos, mais chance de o canabidiol ter seus efeitos, que são puramente neurológicos, comprovados. Acredito que se conheça ainda muito pouco sobre as propriedades da folha da maconha, e só pelos estudos é que saberemos se trata-se de um tratamento revolucionário ou se estamos lidando apenas com mais um medicamento”, avalia.
O publicitário Victor Kato faz uso diariamente, desde os 12 anos de idade, de dois medicamentos que somam mais de 800mg no total para controlar a epilepsia que lhe rende pelo menos uma crise a cada três meses.
Ele não só vê com bons olhos a liberação do uso do CBD para esse fim medicinal como afirma que se submeteria ao tratamento experimental. “Eu acho interessante, porque são anos tomando coquetéis de remédio e nada muda. Acho que tudo que vem para somar é válido”, justifica ele.
“A pior parte é a questão da limitação, não posso dirigir, por exemplo. Quando saio na rua, minha família se preocupa. Por isso eu experimentaria, sim, algo novo”.
(Diário do Pará)
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