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Ocupações prestes a explodir se multiplicam

A gente se sente sem direitos, sabe?”, desabafa Francisco Trindade, sentado em um sofá, olhar fixo no chão, dentro do pequeno cubículo de madeira de dois andares que ele ocupa com a esposa e três filhos na ocupação Jesus de Nazaré, no bairro Maracacuera,

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A gente se sente sem direitos, sabe?”, desabafa Francisco Trindade, sentado em um sofá, olhar fixo no chão, dentro do pequeno cubículo de madeira de dois andares que ele ocupa com a esposa e três filhos na ocupação Jesus de Nazaré, no bairro Maracacuera, próximo ao Outeiro, bem à beira da pista. Líder do Movimento dos Sem Teto Guerreiros de Deus, ele responde como uma espécie de guia dentro da área invadida e transformada em assentamento, repleta de abrigos improvisados, em sua maioria, com lonas de plástico que protegem eletrodomésticos, móveis e aparelhos eletrônicos - tudo isso sob um lamaçal interminável. Assim como milhares de paraenses, é mais uma vítima do déficit habitacional que assola a Região Metropolitana de Belém, uma realidade que não é nova e que voltou a ocupar as manchetes de jornal na última semana, quando a retirada de cerca de cinco mil moradores da ocupação Nova Canaã, no bairro do Satélite, foi feita em clima de guerra, com dois ônibus queimados, ruas interrompidas por barricadas, fogo em pneus e em galhos de árvore, diante dos olhares desesperados dos moradores e familiares pela perda de seus espaços improvisados aos quais chamavam de casas.

ENTRE PIORES

No ano de 2000, o Observatório das Metrópoles, ligado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia, começou a desenvolver atividades na RMB, com o apoio da Universidade Federal do Pará e da FASE/Programa Pará/Amazônia. Quatro anos depois, em 2004, a entidade lançou o estudo “Metrópoles, Desigualdades Socioespaciais e Governança Urbana”, e nele Belém já despontava como uma das regiões mais problemáticas do país, desbancando capitais como Natal e São Paulo: irregularidades urbanísticas atingindo metade do parque imobiliário, falta e inadequação de moradias em todas as áreas analisadas e a liderança no ranking de déficit habitacional, com 20% das moradias em condições precárias. Ou seja, casas improvisadas, mais de uma família morando no mesmo lugar e cômodos cedidos ou alugados (cortiços).

Em 2012, pela Fundação João Pinheiro, de Minas Gerais, o déficit, no Estado, chegava a mais de 262 mil unidades, em valores absolutos, levando em consideração características como precariedade, coabitação familiar, ônus excessivo de aluguel e adensamento excessivo. Só a RMB respondia por quase 66 mil desse total. Pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), as estatísticas, no ano passado, chegavam a mais de 1,2 milhão de pessoas sem moradia apropriada no território paraense.

“Nós ficamos dois meses acampados em frente ao Palácio dos Despachos, mas o Governo não nos dava retorno. Começamos a procurar e achamos essa área onde estamos hoje, que funcionou como curtume que foi à falência e está sem atividade social há mais de três anos. Era só mato. Chegamos e fomos montando nossas casas. Aqui a gente abre para quem precisa morar, mas não aceita, de forma nenhuma, especulação imobiliária, nem aluguel e nem nada. É a primeira coisa que eu aviso para qualquer um que chegue. É por causa da especulação imobiliária que nós e tantos outros estamos desse jeito”, lamenta Francisco.

O residencial Jesus de Nazaré abriga cerca de 120 famílias em condições de bastante dificuldade: não há saneamento básico e a água vem de poços artesianos criados no improviso. “É difícil dizer o que é mais urgente aqui: se é educação, se é saúde, se é saneamento, se é a regularização da terra. A gente precisa de tudo”, admite.

Cotidiano de confrontos por políticas e direitos.

(Diário do Pará)

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