Seis pessoas de uma mesma família foram brutalmente assassinadas na última terça-feira (17), no município de Conceição do Araguaia, no sudeste paraense. A investigação policial do ocorrido aponta que o principal suspeito do crime é o cabeleireiro Oziel de Moura, proprietário da Terra em que a família morava, que havia sido concedida pelo Incra à família morta. Um crime trágico, que pode aprontar o cenário calamitoso da questão fundiária no Pará, marcada por mortes, ameaças e irregularidades.
“Estamos preocupados e aterrorizados com a chacina familiar, que mostra claramente a falta de segurança vivida pelo homem do campo”, afirmou o padre Paulo Silva, o Paulinho, membro da Comissão Pastoral da Terra (CTP) e da Comissão Nacional do Bispos do Brasil (CNBB). “Essa realidade de execuções, trabalho escravo e ameaças é o que acompanha o total descaso em relação à questão fundiária no Estado e no país”.
“O inquérito policial aponta para a disputa por terra, mas o crime por si só está mal explicado. Uma agressão muito grande para uma disputa por terra. Talvez a questão esteja descartando um lado social, uma possível omissão do governo e do Incra. A realidade é que o indígena vive sob ameaças. O camponês vive sob ameaças. O ribeirinho vive sob ameaças. Pesquisadores também. Esta realidade é um câncer que tem raiz grave”, continuou o padre Paulinho.
Em abril, a CNBB irá apresentar um relatório sobre os dados dos crimes agrários no Brasil. Segundo ele, os dados ainda estão sendo apurados, mas apontam um crescimento no número de ameaças de morte e de trabalho escravo. Nem casos de grande repercussão, como o da missionária Dorothy Stang, morta há 10 anos, reverteram a situação.
“Enquanto que crimes como o homicídio da Dorothy deveriam mobilizar o andamento da Justiça, o que ainda percebemos são julgamentos lentos e criminosos em liberdade após pouco tempo cumprindo pena”, continuou. “O próprio Rayfran, envolvido na morte da Dorothy, foi solto e acabou executando um casal de jovens. O Pará mantém o ar de colônia abandonada. Quem tem poder econômico tem o poder em si”, completou.
REFLEXO ANTIGO
Para Paulo Fonteles Filho, do Comitê Paraense pela Verdade, o atual cenário dos conflitos agrários é uma herança da colonização paraense durante a ditadura militar. “Estudamos os crimes ocorridos entre 1946 e 1988, que de certa forma, produziram o atual modelo do Estado, do coronelismo, em que o trabalhador do campo vive a mercê”, afirmou.
“Por que o Pará é o Estado com maior número de casos de trabalho escravo e de pistoleiros? Por causa dos interesses dos oligopólios, que ainda se mantém no mapa agrário. Entender a ditadura é essencial para entendermos o cenário e melhorar a realidade”, conluiui.
O trabalho da Comissão da Verdade segue até setembro de 2016, quando deverá ser elaborado um relatório sobre os caso analisados e uma série de recomendações ao poder público.
(Gustavo Dutra/DOL)
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