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Dezenas de famílias se alojam sob linhões

O perigo parece estar distante, mesmo que a poucos metros acima passem fios de alta tensão. Apesar da imponência das torres do linhão de energia elétrica da Eletronorte-Eletrobras na área urbana, a população faz de sua extensão um festival de irregularida

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O perigo parece estar distante, mesmo que a poucos metros acima passem fios de alta tensão. Apesar da imponência das torres do linhão de energia elétrica da Eletronorte-Eletrobras na área urbana, a população faz de sua extensão um festival de irregularidades. A reportagem do DIÁRIO percorreu diversos bairros de Belém e região metropolitana e flagrou nas áreas do Linhão desde campos de futebol a plantações de cana de açúcar. A falta de terras, o déficit de moradias e o êxodo rural fazem com que cada vez mais famílias se apropriem dessas áreas à procura de lares e trabalho dignos. Hoje vivem com 230 mil Volts de energia sobre suas cabeças. Pra se ter uma ideia do risco, a energia que temos em nossas casas é de apenas 120 Volts.

A maior parte das torres do Linhão passa em bairros da periferia de Belém, onde faltam espaços de lazer. Nessas áreas, crianças fazem das ‘faixas de servidão’ - como são denominadas as áreas usadas para manutenção - verdadeiros parques de diversão. Na estrutura metálica são improvisados balanços e trampolins com pedaços de cordas, pneus e madeira. A empresa do setor elétrico garante que todas as providências são tomadas para que acidentes sejam evitados, e ressalta que a presença dessas moradias é um problema social.

Para milhares de famílias que moram no decorrer dos 35 quilômetros do linhão, divididos em 125 torres na área urbana de Belém, o perigo está além da possibilidade dos fios despencarem das estruturas. Com a voltagem superior a 230 mil V, o linhão de energia elétrica pode ocasionar curto-circuitos e choques por descargas atmosféricas. O engenheiro elétrico da Eletrobras-Eletronorte Luiz Jorge Guedes, lembra: em caso de quedas de raios, eles serão dissipados através de para-raios, mas sua descarga será canalizada para a terra, podendo se propagar no solo, atingindo quem estiver no local. Ocorrências como estas podem ser registradas tanto antes como depois das chuvas.

No canal São Joaquim, no bairro de Val-de-Cans, há diversas construções irregulares na zona do Linhão. Além de lixo e mato, é comum se encontrar redes armadas nas torres, cavalos presos, queimadas, além de pequenos campos de futebol. “Os carroceiros vêm aqui, jogam entulhos e vão embora. Já os bandidos, para assaltar de noite, jogam pedras nos postes de energia para quebrar as lâmpadas. Além das torres, estamos de todos os lados correndo risco”, diz a vendedora Rosa Motta, que desde os 13 anos passou a morar no local. Diz que cresceu vendo imprudências de todas as partes. “Minha família é de Capitão Poço, mas meu pai veio para Belém atrás de um emprego. Quando ele começou a trabalhar como pedreiro, trouxe minha mãe, eu e meus dois irmãos. Ele conseguiu esse terreno, que na época, era só mato. Aos poucos, foi construindo a nossa casa. Cresci com medo de pegar choque. Depois, com o costume, não nos importamos”.

A vendedora acredita que falta mais educação para contornar o problema, pois mesmo acompanhando acidentes fatais, a população não se conscientiza do perigo. “Colocam redes, sentam debaixo das torres e queimam lixo, sem medo nenhum. Eu sei do risco, mas os vizinhos parecem não se importar. Os meninos brincam de futebol, queimada e até vôlei... e a bola vai bem alta. O dia em que eu tiver condições vou sair daqui e morar em outro lugar. Ano passado, um menino que estava empinando pipa pegou uma descarga elétrica e morreu na hora. Além do perigo de assalto, temos que ficar atentos aos linhões”, argumentou Rosa.

LAZER IMPROVISADO

Na passagem São Benedito, já no conjunto Paraíso dos Pássaros, também no bairro Val-de-Cans, as ‘faixas de servidão’ são usadas como área de lazer e de esporte. Os jovens e as crianças fazem debaixo do linhão o seu único lugar para passar o tempo e se divertir nas horas vagas, que, praticamente, levam a maior parte do dia. Por não haver espaço adequado na comunidade, a própria população se incumbiu de fazer as construções proibidas.

“Moro aqui há mais de 10 anos, e sempre teve esse campo de futebol embaixo do linhão. De tarde os meninos se reúnem para jogar bola quase todos os dias, não importa se está chovendo ou não. Os jovens não têm espaço para brincar, e por isso, eles mesmos fazem os campos, as redes, sem olhar para o perigo. Graças a Deus nunca houve nenhum acidente. O problema maior que nós temos aqui é o lixo que o pessoal joga. Encontramos um pouco de tudo: tem cama, sofá velho, resto de comida, animal morto, e muito mato espalhado”, pontua a moradora Rosa Costa.

O carroceiro Thiago Silva mora na passagem Eletronorte, no mesmo conjunto. Ele se preocupa ao ver as crianças penduradas em uma estrutura de madeira, sustentada por uma corda. “Eles chamam isso de balanço. Colocam pneus velhos para subir e ficam o dia todo se balançando. Sempre foi assim. Como não existe um local para eles se divertirem, empinam pipas aqui próximo, jogam bola e fazem pequenos trampolins”, lamenta.

O carroceiro cria seus filhos na comunidade, e diz que por não haver quadras esportivas e área de recreação, ele permite a brincadeira. “Até mesmo na escola eles não brincam, pois nunca assistem aula o dia todo. Faltam praças, áreas de exercícios físicos, porque nos únicos lugares desses que tem aqui próximo os pobres não têm vez”, comparou Thiago.

PLANTAÇÕES

Para aproveitar o terreno ócio em frente à sua casa, o aposentado Josias Borges Lopes, de 70 anos, resolveu no ano passado dar vida ao local. Aos poucos, ele fez um pomar, que hoje produz frutos às margens do Canal São Joaquim, no bairro de Val-de-Cans. A partir de sua iniciativa sustentável, ele pode gerar uma renda extra para sua família e oferecer sombra aos seus vizinhos. Benefícios, sob o risco de receber uma descarga elétrica.

O aposentado veio do município de Salinópolis, e como já trabalhou em plantação, resolveu investir nas terras improdutivas, sem se atentar aos riscos. “Vai fazer 15 anos que eu moro aqui. E, ano passado, resolvi plantar algumas coisas no terreno, na frente de casa, que não tinha nada além de mato. Comecei plantando cana, e, quando eu percebi, já estava um canavial”, lembrou sorrindo.

Uma vez a plantação dando frutos, seu Josias passou a investir mais. “Plantei banana, goiaba, muita pimenta, macaxeira e até melancia. Teve uma época que tirei cana para vender, ficou muito bonito aqui”, se orgulhou o aposentado, que também plantou uma árvore de Miriti. Questionado sobre o tamanho da planta, ele conta que à medida que vai crescendo, são cortadas, para não chegar até os fios. “É melhor ter árvores bonitas, que dão sombra, do que apenas mato e lixo próximo às torres”, completou.

A esposa do seu Josias, a dona de casa Claudia Lopes, conta que a plantação é um benefício não só para sua família, ma também para os vizinhos. “Essa região aqui é muito suja, e antes alagava tudo. Meu marido fez um canal pequeno para desviar a água. Ele limpa o terreno todos os dias. Aqui, encontramos muitas cobras, mucuras e ratos. Outro dia um jacaré entrou no pátio da nossa vizinha. Sabemos do perigo dos fios, mas também temos outros perigos aqui embaixo”.

A poucos metros da casa da família Lopes, na primeira torre, ao lado esquerdo de quem entra pela avenida Júlio César, encontramos toalhas, guardanapos e roupas estendidas na estrutura metálica. As peças são da dona de casa Cleide Santos, que afirma não ter perigo sua atitude. “Como a minha casa não tem quintal e nem lugar para eu estender as roupas, faço o meu varal aqui. Há 15 anos moro nesta casa, sempre fiz isso e nunca aconteceu nada. Um dia, uma pessoa pegou um choque, mas não por causa das minhas roupas. Ela pegou aqui na grade de casa e levou o susto”, lembrou Cleide.

Na avenida Perimetral, entre a Universidade Federal do Pará (UFPA) e a Universidade Rural da Amazônia (Ufra), a poucos metros da subestação da Eletronorte-Eletrobras do Guamá, os carroceiros levam os seus cavalos para pastar no local, além de deixá-los amarrados nas torres em plena luz do dia.

Seguindo a passagem Linhão, como é conhecida, encontram-se dezenas de casas de madeira, que foram construídas sob os fios de alta tensão, não respeitando o limite – espaço de segurança.

Por serem vias pavimentadas e com um tráfego frequente de pessoas e veículos, na avenida Centenário e seguindo pela Independência as irregularidades sob as torres já passam a ter menor frequência. Porém, algumas pessoas não se intimidam e fazem da estrutura suporte de faixas de divulgação dos estabelecimentos comerciais e festas.

No cruzamento com a avenida Augusto Montenegro, no bairro do Mangueirão, os ambulantes amarram cordas de trapézio sem nenhum medo, além de agruparem mochilas e bolsas com material de propagandas.

“O pessoal faz isso porque pode. Temos muitos guardas aqui. Se fosse errado eles já teriam nos tirado”, arremata um, vendedor ambulante que não quis ser identificado.

(Diário do Pará)

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