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Com trapiche abandonado, moradores sofrem

É um teste de equilíbrio, paciência e coragem ter acesso ao trapiche desativado da Central de Abastecimento do Pará (Ceasa). Em quase um quilômetro de via totalmente esburacada, ciclistas e motociclistas desviam como podem para sair de um buraco e não cai

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É um teste de equilíbrio, paciência e coragem ter acesso ao trapiche desativado da Central de Abastecimento do Pará (Ceasa). Em quase um quilômetro de via totalmente esburacada, ciclistas e motociclistas desviam como podem para sair de um buraco e não cair em outro maior. A pista que começa na entrada da Ceasa e termina no porto abandonado, tem postes de iluminação, mas luz que é bom, nada. Em um deles, bem próximo à lâmpada, tem até ninho de caba.

As 49 famílias que moram nos arredores da via sofrem as consequências da ausência de políticas públicas. Trabalho mesmo quem teve foi o vendedor Jerry Adriano Cardoso, 45 anos, quando a cunhada e a avó da esposa adoeceram. Ele precisou carregá-las nas costas por uma ponte de um quilômetro e meio e esperar na beira da pista por socorro. Os motoristas de ônibus que deveriam circular na estrada, se recusam a fazer o trajeto, por conta do medo de assalto. Em casos de emergência, a saída são os táxis. Entretanto, até eles se negam a fazer corrida por lá.

“Aqui a dificuldade é demais. Não tem transporte. Eu já coloquei a avó da minha esposa e outra vez a cunhada nas costas. A avó recebe um benefício e minha esposa luta com ela’’, conta Jerry. A senhora que Jerry carregou nas costas é Maria Petrolina dos Santos, 85 anos. Ela teve três derrames. Em um deles ficou com a perna direita paralisada. “É o pessoal que me leva quando preciso ir ao médico. Eu já estive muito internada. Quando preciso ir ao médico é sempre assim’’.

Transporte

O genro, Rosivaldo da Silva Pereira, 32 anos, coloca Petrolina na cadeira de rodas e aguarda na beira da estrada por um taxista que aceite apanhá-la. “Eu já tenho contatos de taxistas. Já aconteceu de eu ligar e eles dizerem não. A gente entende que não querem vir, por causa da dificuldade da pista e da questão de insegurança’’.

Para não se atrasar e nem perder aula, a estudante Taciane dos Santos, 17 anos, sai de casa de bicicleta, deixa em um local onde considera seguro e depois pega o ônibus. “A principal dificuldade é o transporte. Das 11h, os ônibus já não querem entrar na Ceasa. Quando precisamos sair é só de mototáxi. Eu vou pra escola de bicicleta até a portaria. Estudo na Lomas (Valentinas, avenida). Meus primos e meu tio já foram assaltados, mas o que posso fazer’’, lamenta.

Quando a esposa adoeceu e precisou amputar dois dedos do pé, José Alves de Souza, 60 anos, se viu em apuros. Ele teve que desembolsar cerca de R$ 70 para que um táxi a deixasse num pronto-socorro. “Fiquei um cego em tiroteio. Alugamos um táxi e pagamos 70 reais para chegar, porque ônibus não vem pra cá’’.

Sem os dedos do pé direito, Jucileide de Silva de Souza, 56 anos, sente dificuldades em andar. Ela mora com José ao término da estrada, bem em frente ao trapiche. Qualquer lugar que necessite ir é fundamental a ajuda de um transporte devido a deficiência. Ela raramente sai sozinha, por causa dos buracos. Os moradores se reuniram várias vezes e compraram carradas de areia para tapar as crateras. “Tem buracos que levam até meia carrada de aterro’’.

Comunidade quer reconstrução de igreja

Embora sem funcionalidade nenhuma, o trapiche, que antes servia para embarque e desembarque de cargas, está sem estrutura alguma. O assoalho da ponte não existe mais. Há apenas as madeiras deterioradas e muito mato no local. Segundo Jucileide, a igreja de madeira construída pelos moradores foi derrubada com a promessa de ser reconstruída com a reforma do trapiche.

Enquanto a igreja não é reerguida fisicamente, sentados em um banco improvisado de madeira e restos de cadeiras de escola, os membros se reúnem ao ar livre. “O ex-presidente Carlos Augusto mandou derrubar no ano passado. Trabalhamos com meninos de rua, drogados, pessoas com problemas no casamento e Deus tem restaurado, libertado. Eles falaram que vão revitalizar o porto para que as carretas façam o retorno aqui. Próximo ao período de campanha, era maquinário. No outro dia, foi embora. No papel, a ponte está de concreto.”

Jucileide faz apenas um pedido. “A única coisa que queremos é que o governador, por favor, tenha amor e ajeite a pista. No tempo da política, a gente apoia. Depois nos esquecem”, frisa Jucileide. Em nota, a Ceasa afirma que a “administração do órgão informa que fará um levantamento da situação e buscará soluções para a melhoria da via e de áreas adjacentes”. A Secretaria Municipal de Urbanismo (Seurb) foi procurada, mas não se manifestou até o fechamento desta edição.

(Diário do Pará)

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