Passados alguns minutos, o corpo começa a suar em excesso, a pressão arterial aumenta, os batimentos cardíacos ficam acelerados e as principais mudanças de percepção das coisas começam a se formar. Como nunca, as cores ficam mais fortes e a visão passa a ser fragmentada e distorcida como se estivesse olhando por um caleidoscópio. Em tratamento já há seis meses para se livrar da dependência química, o homem de 33 anos lembra até hoje dos efeitos provocados pela droga que vem ganhando cada vez mais espaço em boates e casas de show em Belém, a ‘gota’. “Você toma uma dose e o efeito é altíssimo”. Formado pelo LSD (Dietilamina do Ácido Lisérgico) em forma líquida e superconcentrada, a ‘gota’ recebe este nome porque basta um ‘pingo’ para que o usuário comece a sentir seus efeitos.
Apresentado à droga aos 24 anos de idade em boates de Belém, o homem que hoje prefere preservar a própria identidade - e que faz tratamento no Centro Nova Vida - conhece bem os efeitos nocivos que o derivado do LSD pode gerar ao organismo. “A ‘gota’ é o LSD puro que a pessoa pinga na boca ou no copo de bebida. É o LSD concentrado. Toma uma ‘gota’ e fica seis, oitos horas com o efeito”, explica.
“Essa é uma droga que não é novidade, já existia há uns seis, oitos anos aqui em Belém, mas agora está se popularizando”. A ‘popularização’ apontada pelo ex-usuário é relativizada quando se identifica que a droga costuma circular em meios com acesso mais restritos do que outros tipos de droga. Produzida em laboratório, a substância tem um alto custo para quem consome. “O acesso é mais por grupos fechados, não se encontra em qualquer canto. No início, a ‘gota’ vinha de Amsterdã (capital holandesa), não era produzida aqui no Brasil. Mas agora pode até ser que já estejam conseguindo fabricar aqui no país”, considera. “Uma gota custa R$60. É muito usada em boates. Eu fazia uso mais em festas, sítios, ambientes fechados e em grupos restritos. Levavam geralmente em frasco de colírio, você comprava e pegava uma ‘gota’ direto na boca mesmo”.
Também muito usada em casas noturnas, o ecstasy é utilizado como comparativo pelo homem que optou por abandonar o uso da ‘gota’ e também de outras drogas. “O ecstasy também é muito usado em boates, só que ele provoca ânsia de vômito. A pessoa toma mais de um comprimido e uma hora acaba atacando o fígado e a tendência é a pessoa vomitar, já a ‘gota’ não. A pessoa tem que tomar uns três, quatro comprimidos para alcançar o efeito de uma ‘gota’”, acredita. “Eu decidi parar quando eu perdi o controle da minha vida e vi que não conseguia mais ficar sem usar”.Aliados ao LSD - que é classificado como uma droga alucinógena -, o ecstasy e a cocaína são apontados como as drogas mais usadas em boates e casas noturnas pelas próprias características e efeitos provocados. “São drogas que atuam no cérebro e no corpo, reduzem o sono e deixam a pessoa ‘ligada’, por isso são muito usadas em boates”, aponta o diretor do Centro de Prevenção e Tratamento de Alcoolismo e Drogadição - Centro Nova Vida, Luis Veiga. “O êxtase e a ‘gota’ têm um uso pouco mais reduzido em Belém pelo próprio preço, mas estão sendo consumidas. Estão aí nas boates, nas raves e até nas portas de escolas”.
Apesar de menos expressivas se comparadas à quantidade grande de usuários de maconha e do crescimento do uso de crack em Belém – cenários apontados pelo próprio centro de tratamento -, esses tipos de droga chamam a atenção pela gravidade das consequências já observadas em alguns usuários. “A ‘gota’ não é uma novidade. Parece ser novidade porque está tendo um conhecimento maior do seu uso pela sociedade em geral agora, mas muita gente já morreu aqui no Estado por causa da ‘gota’”, aponta Veiga. “A sociedade tem papel fundamental. É preciso que as famílias monitorem seus filhos. Normalmente, os últimos a tomarem conhecimento de que o filho faz uso de drogas são os pais. É preciso conversar abertamente”, alerta.
ESTIMULANTES
Classificadas como estimulantes, drogas como o ecstasy e a cocaína, assim como a ‘gota’, também podem levar gerar prejuízos graves à saúde. Segundo o psiquiatra que já esteve à frente do Conselho Estadual de Entorpecentes (Conen), Marupiara Guerra, os prejuízos causados pelas drogas estimulantes estão normalmente associados à aceleração do funcionamento do cérebro. “Qualquer droga excitante faz uma descarga brutal de dopamina no cérebro e acelera o seu funcionamento.
No caso do êxtase, a aceleração leva a atividades físicas compulsivas, descontroladas e podem comprometer o cérebro e o coração, podendo levar a paradas cardíacas”, esclarece. “A cocaína é um estimulante clássico que também aumenta o ritmo do cérebro e faz com ele se desgaste excessivamente, quando há o uso contínuo”.Dentre as complicações mais graves que podem ser causadas pelas drogas estimulantes, está, inclusive, o risco de morte. “O uso exagerado provoca um aumento excessivo da pressão arterial que pode levar à sobrecarga do coração e, consequentemente, ao infarto”, aponta. “A segunda possibilidade de morte por overdose é o superaquecimento do corpo. O corpo humano não está preparado para agir em temperaturas muito acima de 38º, então ele não aguenta a sobrecarga e a pessoa morre. No caso do ecstasy, a temperatura do corpo pode chegar a 40º”.
CONTROLE
Tão perigosas pelos efeitos causados, a ‘gota’, o ecstasy e a própria cocaína têm como agravante a dificuldade de identificação em locais como boates. Diferente das drogas que são fumadas, provocando fumaça e cheiro, a ingestão de comprimidos e gotas líquidas são mais difíceis de ser constatadas, segundo o Sindicato dos Hotéis, Bares, Restaurantes e similares do Pará. “Existe uma limitação constitucional que prevê que é preciso revistar as pessoas sem lhes causar constrangimento.
É feita a revista de bolsos e bolsas, mas há casos em que colocam o comprimido, a droga dentro de roupas íntimas, de absorventes... como identificar isso sem causar constrangimento?”, aponta o chefe jurídico do sindicato, Fernando Soares. “É difícil fazer esse controle pela própria característica dessas drogas. As casas noturnas têm fiscais de eventos que, quando identificam o uso, colocam a pessoa para fora ou, dependendo do caso, aciona a polícia. Mas é preciso avançar um pouco na legislação e desenvolver medidas de controle mais eficazes para tentar coibir esse uso”.
Afirmando um investimento cada vez maior por parte das casas de show no posicionamento de fiscais, inclusive dentro dos banheiros para tentar coibir o uso de drogas, Fernando Soares aponta, ainda, outra forma de consumo que tem sido observada. “A gente percebe um consumo muito maior na parte externa das casas noturnas do que internas. Eles saem da boate, consomem a droga nos carros e entram novamente”, afirma. “Não se pode impedir que o cliente vá no seu carro e volte.
A fiscalização dentro das casas noturnas é constante”.Diretor da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) da Polícia Civil do Estado do Pará (PC), o delegado Hennison Jacob lembra que os proprietários de casas noturnas podem ser responsabilizados pelo consumo de drogas ilícitas em seus estabelecimentos, caso seja constatado que estão sendo coniventes com a prática. “Se eles (proprietários) tiverem conhecimento do uso dentro do estabelecimento, eles têm participação direta, são responsabilizados”, afirma, ao explicar a atuação da polícia nesses casos. “Esse trabalho dentro das casas noturnas é mais investigativo.
Tem que ter um trabalho de investigação de quem está fornecendo.”Ainda segundo o delegado, caso seja constatado o consumo de drogas dentro de boates, os proprietários podem solicitar apoio à polícia através do 181. “É só ligar 181 ou procurar a DRE, como muitos já fizeram. A partir daí, eles dão garantia para a gente entrar na boate com os policiais infiltrados e averiguar”, aponta. “Essa ‘gota’ é colocada em frascos como de esmalte, de colírio, então é mais difícil de ser identificada, principalmente no ambiente escuro, com jogo de luzes. A gente tenta averiguar na porta, antes de eles entrarem”.
(Diário do Pará)
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