Perdendo interesse pela escola gradativamente, a adolescente de 17 anos interrompeu os estudos quando ainda estava cursando a segunda etapa do ensino médio.
Cada vez mais próxima de amizades que acabaram por lhe levar ao envolvimento com drogas, a jovem só teve consciência da oportunidade que estava perdendo afastada dos estudos depois que se viu cumprindo medida de internação socioeducativa. “Com educação e dignidade é possível transformar a vida. Basta a pessoa querer”, afirma.
Longe de ser um caso isolado, a realidade vivenciada pela maioria dos jovens e adolescentes que cumprem medidas socioeducativas no Pará é bem parecida com a da jovem que hoje dá continuidade aos estudos e planeja cursar faculdade de medicina.
Segundo dados do Núcleo de Planejamento da Fundação de Atendimento Socioeducativo do Pará (Fasepa), dos jovens que estão em condições de internos ou de semiliberdade no Estado, 74,75% estudaram apenas até a 2ª série do ensino fundamental.
“Eu estava no buraco e achei uma mão amiga. Hoje eu pretendo continuar os meus estudos e fazer faculdade de medicina, que eu sempre quis desde pequena”, completa.
Destacando os elementos que compõem a socioeducação, modalidade de ensino considerada ideal para jovens em conflito com a lei, o juiz titular da 3ª Vara da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça do Estado (TJ-PA), Wanderley de Oliveira Silva, não tem dúvidas do papel que a educação pode exercer na vida de adolescentes.
“A educação formal, aliada com o desenvolvimento familiar, serve como modelo de proteção dos jovens e adolescentes. A baixa escolarização acaba contribuindo para que o adolescente se envolva numa condição de delinquência juvenil”, acredita.
“É preciso avançar não apenas com relação a atrair os jovens para as escolas, mas também com relação à contextualização da educação na realidade específica daquele jovem”.
Estabelecido pelo Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase), a modalidade de educação é a ferramenta utilizada não apenas para repassar conhecimento formal aos jovens em conflito com a lei, mas também para promover a reinserção desse adolescente na sociedade.
“É uma metodologia específica e diferenciada para quem cumpre medida socioeducativa. É uma ferramenta usada para empoderar o jovem de uma vida digna de libertação interna. Esses jovens vivem, na verdade, uma situação de escravidão interna”, acredita.
“O crime escraviza e a escola é uma das ferramentas principais para libertar o jovem disso, mas precisa estar aliada a outras ferramentas, como a cultura, o esporte, o fortalecimento dos laços familiares e a sociedade. Isso tudo é que forma esse conceito socioeducativo”.
Segundo dados divulgados pela Fasepa, atualmente 358 adolescentes em conflito com a lei estão nas 15 unidades de internação da fundação.
Do total, 100 ainda aguardam sentença nas unidades provisórias localizadas em Belém, Ananindeua, Santarém e Marabá.
“A educação é uma das condicionantes da internação de jovens e adolescentes que cumprem medidas socioeducativas e, infelizmente, a baixa escolaridade acaba impactando na realidade desses jovens”, aponta o presidente da Fasepa, Simão Bastos.
“A perspectiva a partir da internação é, com a equipe de técnicos, flexibilizar o acesso deles à educação, utilizando a motivação como parte disso.”
MAIORES
Já evidentes quando analisada a situação de jovens e adolescentes que cumprem medidas socioeducativas no Estado, a baixa escolaridade também é percebida entre a população carcerária custodiada pela Superintendência do Sistema Penitenciário do Estado do Pará (Susipe), esses já maiores de idade que cumprem pena nas casas penais do Estado pelo cometimento de algum tipo de crime.
Dados mais recentes de janeiro de 2015 apontam que a maioria da população carcerária do Estado possuía apenas o ensino fundamental incompleto.
(Diário do Pará)
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