O Brasil detém aproximadamente 12% da água doce do planeta. Ironicamente, o país enfrenta a mais grave e histórica crise de abastecimento hídrico, refletida, principalmente, na região Sudeste, com reflexos mais graves em São Paulo: a maior cidade do país, com cerca de 11 milhões de moradores, desde o ano passado está se acostumado a uma rotina de falta d’água, que não raramente suspende serviços básicos, como o funcionamento de escolas. Hoje, quando é lembrado o Dia Mundial da Água, vale uma reflexão sobre o futuro do abastecimento no Brasil e a geração de energia.
No ano passado, a Organização das Nações Unidas (ONU) alertava a sociedade brasileira a refletir sobre o uso desse bem finito. Foi escolhido o tema “Água e Energia”, por estarem intimamente interligados e interdependentes, uma vez que as gerações hidrelétrica, nuclear e térmica necessitam de recursos hídricos. Este ano, o tema é “Água e Desenvolvimento Sustentável”.
Nossa geração de eletricidade provém basicamente das hidrelétricas instaladas, responsáveis por 75% de nossa capacidade energética. Por isso a escassez de água está diretamente ligada à falta de energia elétrica no país. O apagão de janeiro, que deixou 12 Unidades da Federação sem luz por uma hora, foi o primeiro do ano, mas a precariedade da infraestrutura energética no Brasil indica que não deverá ser o último. A falta de chuvas compromete não somente a geração de energia, mas principalmente o abastecimento de água.
E o Pará, bem como os demais Estados da Amazônia, surge como guardião destes dois bens, que hoje se tornam preciosos à população.
TESOURO
A Amazônia é conhecida mundialmente por sua disponibilidade hídrica e pela quantidade de ecossistemas, como matas de terra firme, florestas inundadas, várzeas, igapós, campos abertos e cerrados. A Região Hidrográfica Amazônica é constituída pela bacia hidrográfica do rio Amazonas no território nacional, pelas bacias hidrográficas dos rios existentes na Ilha de Marajó, além das bacias hidrográficas dos rios situados no Estado do Amapá, num total de 3.869.953Km².
A bacia hidrográfica do rio Amazonas tem a mais extensa rede hidrográfica do globo terrestre, ocupando uma área total da ordem de 6.110.000Km², das nascentes nos Andes Peruanos até a foz no oceano Atlântico, se estendendo sobre vários países da América do Sul.
DEMANDA
Em termos de recursos hídricos, a contribuição média da bacia hidrográfica do rio Amazonas, em território brasileiro, é da ordem de 132.145 m³/s (73,6% do total do país). Ainda assim, as maiores demandas pelo uso da água na região ocorrem nas sub-bacias dos rios Tapajós, Madeira e Negro, e têm por finalidade o uso para abastecimento humano e dessedentação animal ( 33% e 32% da demanda total da região, que é de 78,8m³/s). São consumos pouco significativos quando comparados com a disponibilidade hídrica por sub-bacia.
O Pará integra também a Região Hidrográfica do Tocantins-Araguaia, com uma área de 918.822Km² (11% do território nacional) que abrange os estados de Goiás (21%), Tocantins (30%), Pará (30%), Maranhão (4%), Mato Grosso (15%) e o Distrito Federal (0,1%).
Em 2010, cerca de 8,6 milhões de pessoas viviam na região hidrográfica (4,5% da população nacional), sendo 76% em áreas urbanas. O desmatamento da região se intensificou a partir da década de 1970, com a construção da rodovia Belém-Brasília, da hidrelétrica de Tucuruí e com a expansão das atividades agropecuárias e de mineração.
E o crescimento das atividades econômicas só aumentam a preocupação com a demanda por mais água. Segundo dados da Agência Internacional de Energia, um aumento nominal de 5% do transporte rodoviário no mundo até 2030 poderia aumentar a demanda por água em até 20% na agricultura, devido aos biocombustíveis.
Outro dado da ONU aponta que cerca de 8% da energia gerada no planeta é utilizada para bombear, tratar e levar água para o consumo das pessoas. Além disso, os recursos hídricos são utilizados para a geração de energia geotérmica, que é uma alternativa para energia em países com
escassez de água.
Segundo o Relatório de Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil – Informe 2013, da Agência Nacional de Águas (ANA), o país possui 1.064 empreendimentos hidrelétricos: 407 deles são Centrais de Geração Hidrelétricas (CGH), 452 Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCH) e 205 Usinas Hidrelétricas (UHE). Em 2012 houve um acréscimo de 3,972MW na capacidade de produção de energia elétrica instalada no Brasil, sendo 1.843MW referentes à geração hidroelétrica. O grande destaque na matriz energética brasileira fica a cargo da geração hidroelétrica, que representa 70% de toda capacidade.
PARÁ SEM ÁGUA
O Pará pode até estar livre do drama da escassez de água, mas a falta de campanhas de conscientização da população e a incapacidade do governo do Estado de tratar a água sem desperdiçar expõem a fragilidade dos sistema paraense, que também está à mercê dos fatores climáticos.
O Pará é o 12º Estado brasileiro em volume de consumo de água por habitante. Em 2013, de acordo com dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, os paraenses consumiram cerca de 157 litros de água por dia, 50% a mais que o recomendado pela ONU, que considera suficientes 110 litros de água por pessoa.
O Pará é o 9º Estado brasileiro em desperdício. O índice de perdas na distribuição chega a quase a metade do total abastecido somente em 2013: 48,9%. O desperdício com vazamentos e ligações clandestinas no Pará seria suficiente para abastecer um Estado como Alagoas, por exemplo, que tem o menor consumo per capita do país.
Na região Norte, onde a água existe em abundância, os índices são assustadores: o Amapá perde 76% da água da sua rede pública e o Acre, 62,78%. Alagoas perde 65,87%. O Rio de Janeiro, quase a metade do que trata: 46,95%. O Estado com menor índice deperdas é Mato Grosso do Sul, com 19,65%. Em São Paulo, o índice real chegou a 31,2% em 2013. Em média, o país perde 37,57% da água que circula pelas redes. Sem isso, não se cogitaria racionamento.
Em países com redes eficientes como Japão e Alemanha, as perdas são de 7%; no Reino Unido chegam a 16% e na França, a 26%. Segundo rankingdo Instituto Trata Brasil com base nos dados de 2012, Belém está entre os cem municípios que mais perdem água tratada.
FONTES SECAS
A grande seca que assola principalmente o Sudeste do país é a mais severa dos últimos 50 anos. Ela evidencia o limite do uso do recurso nas cidades onde o crescimento populacional e industrial não é acompanhado pelo aumento da oferta de água tratada.
Dados da ONU mostram que o uso da água cresceu duas vezes mais que o aumento da população no último século. Enquanto a população global evoluirá de 7 bilhões para 9 bilhões em 2030, até 2025 o gasto de água deverá ser elevado em 50% nos países em desenvolvimento, e em 18% nos desenvolvidos.
Ainda existem 780 milhões de pessoas no mundo sem acesso a água potável. E até 2025, dois milhões viverão em regiões com absoluta escassez. Pelo menos 70% da água disponível no planeta é utilizada para irrigação. No Brasil, o índice é de 72% (29,6 milhões de hectares). Mas, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), 60% da água em projetos de irrigação é perdida por fenômenos como a evaporação. Uma redução de 10% no desperdício já poderia abastecer o dobro da população atual.
(Diário do Pará)
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