De bicicleta e com um semblante abatido, a dona de casa Adriana Belo Silva chegou à Unidade de Saúde da Família, no Paracuri II, em Icoaraci, distrito de Belém, na manhã de ontem, com seus dois filhos. A jovem de 17 anos estava com uma forte dor nos dentes, enquanto o menino, de 10, teria passado mais de 40 dias com febre, sem qualquer informação da enfermidade que realmente o acometia. Apática, ela, novamente, recebeu a notícia: não há atendimento no posto.
“Desde a semana passada eu venho aqui com os meus filhos procurar um médico e eles não nos atendem. Disseram que só poderiam fazer atendimento em casos mais graves. Eu moro no Paracuri I, e lá o posto não estava funcionando também. Disseram que estão fazendo uma reforma. O outro hospital de Icoaraci, o grande (São Lucas) está sendo construído. Quando vamos à UPA, eles dizem que precisam de um encaminhamento da Unidade. O jeito é ir para Belém, pegar ônibus com meus filhos doentes, e procurar um Pronto-Socorro”, lamentou Adriana, que não tem recursos para comprar medicamentos ou procurar um médico particular.
Coincidentemente, a reforma acontece após os postos de Saúde do Paracuri sofrerem uma interdição ética, aplicada pelo Comissão de Fiscalização do Conselho Regional de Medicina do Pará (CRM-PA) na última quinta-feira, 23.
A interdição aconteceu por que o CRM fez uma visita técnica nas unidades no início deste ano e apontou diversas irregularidades e deficiências na infraestrutura. Mesmo a Secretaria Municipal de Saúde (Sesma) sendo notificada do caos, a situação persistiu.
SOFRIMENTO
A reportagem do DIÁRIO esteve nas Unidades de Saúde do Paracuri, e encontrou a todo o momento, pessoas voltando para suas casas sem qualquer atendimento e se queixando do que consideram descaso do prefeito Zenaldo Coutinho com a saúde pública.
Aurora de Albuquerque é hipertensa e sofre com constantes dores reumáticas. Sem saber que o local estava interditado, ela foi procurar ajuda médica. “Estou sentindo um desconforto. Tenho pressão alta, e sempre venho aqui para ver como está. Precisamos deste local, e hoje, eles nos disseram que deveríamos procurar outro lugar, pois não tem médico e vão ficar 60 dias atendendo apenas emergência”, contou a dona de casa.
A estudante Roberta Mourão acompanhava seu pai, o aposentado Ruy Trindade, que estava com “desconforto na cabeça e aperto no coração”. “Vamos ter que ir para um Pronto-Socorro do centro. Meu pai é hipertenso e não pode ficar sem nenhum atendimento médico. Como não podemos ir de ônibus, vou ter que pedir ajuda de alguém da família ou dos vizinhos para pegar um táxi, pelo menos de ida”, desabafou Roberta.
(Diário do Pará)
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