Entre trabalhar embaixo de chuva ou desembolsar R$ 200 para cobrir um dos imensos rombos no telhado da Feira do Jurunas, o feirante Francisco de Oliveira, 48 anos, preferiu mexer no bolso. Segundo ele, a maioria dos feirantes decidiu fazer o mesmo quando perceberam que a Prefeitura de Belém não resolveria a situação.
Assim como Francisco, o feirante Paulo Magalhães, 52 anos, reclama das condições de trabalho. De acordo com ele, quando chove, alagam os corredores. O telhado com incontáveis fissuras e estrutura enferrujadas está repleto de remendos improvisados. E mais, há lixo acumulado próximo as barracas. O espaço já virou moradia de cães e gatos abandonados.
O feirante Marcio André Sales, 33 anos, já se contentou em pagar diariamente R$ 5 para alguém fazer a limpeza. “A limpeza fica por nossa conta. Sempre foi assim. Tenho que dar todo dia R$ 5”. Insegurança é outro fator que desestimula os trabalhadores. “A gente paga no fim de semana uns seguranças particulares para repararem aqui. Tem assalto constantemente. Eu já fui assaltada. Eles entram aqui e ameaçam a gente e os clientes. A polícia fica pra ali no PM box e às vezes só chega quando já foram embora os assaltantes”, conta Ana Maria.
A dona de casa Odeni Costa, 34 anos, é do município de Canaã dos Carajás e estava de passagem pela feira. Na manhã de ontem, precisou comprar legumes. O local não causou boa impressão. “Em termos estruturais, não está bom aqui. Está precário, principalmente na parte de higiene.”
Na Feira do Porto da Palha, na rua Padre Eutíquio, no Guamá, os feirantes dividem espaço com o lixo acumulado próximo às barracas. Enquanto a população faz as compras, o mau cheiro do lixo precisa ser ignorado. A feirante Maria José Pantoja, 59 anos, relata que a sujeira amontoada em frente a um comércio de carnes está lá há 10 dias.
Maria chegou a pedir para o fiscal da Secretaria Municipal de Economia (Secon) mandar uma caçamba retirar os dejetos do local, mas não foi atendida. “Está fazendo uns 10 dias esse lixo aí. Chamei na segunda um fiscal da feira para providenciar a retirada do entulho e ele ouviu, mas parece que entrou por um ouvido e saiu por outro. O cheiro é terrível. Vieram limpar o bueiro, e deixaram o entulho lá. E foi um pé pro pessoal também deixar. Ainda agora passou uma caçamba do entulho. Passou e não parou para levar”.
A feirante conta que, no período eleitoral, o prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho, visitou a feira e prometeu melhorias. Até hoje a situação permanece. “O Zenaldo veio aqui no tempo da eleição. Ele queria voto, né? Hoje nao vem mais. A gente nem ouve mais falar dele. Eu me lembro de quando o Zenaldo veio aqui com a equipe dele. Filmaram, fotografaram. Acabou em nada. A única feira que só não é abandonada por Deus é a nossa.”
Maria lembra que pagou durante um ano, todos os dias, a quantia de R$ 1 ao líder comunitário da feira, com a promessa de se mudar para um prédio ao lado do Porto da Palha. Segundo ela, o homem sumiu com o dinheiro e os feirantes não conseguiram se mudar para uma estrutura melhor.
“Todo dia a gente pagava um real. Todo mês tinha reunião com os feirantes. Fiquei um ano pagando um real por dia. Todos os feirantes da associação faziam isso. A nossa esperança é passar para um prédio grande que tem ao lado do Porto da Palha, mas nós somos muito enganados”, lamenta.
A moradora da ilha do Combu Sofia Paiva, 63 anos, frequenta a feira diariamente e nota o descuido. “Falta tudo aqui. Vê como está? Falta limpeza. Não ajeitarem as barracas para os feirantes trabalharem direito. Precisam estruturar esse local. Você tem que ter uma boa estrutura para trabalhar melhor’’, diz.
RESPOSTA
Sobre o Complexo do Jurunas, a prefeitura diz, em nota, que a “revitalização do complexo, que inclui entre outras coisas a recuperação total dos pisos e coberturas, está em processo licitatório e as obras devem iniciar ainda este ano”.
Afirma que a Secretaria Municipal de Saneamento realiza diariamente a retirada de lixo e de entulho, tanto no Complexo do Jurunas quanto no Porto da Palha, a partir das 13h. Afirma que a Sesan também realiza serviços de capinação e raspagem.
Com relação ao Porto da Palha, a PMB afirma que assinou no dia 29 de abril um convênio de cooperação técnica com o governo do Estado para a construção e/ou requalificação técnica de dez terminais hidroviários na capital paraense, entre os quais o do Porto da Palha.
(Diário do Pará)
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