No momento em que a cidade dorme, o trabalho realizado por centenas de mãos noite adentro fica mais evidente. Iluminado apenas pelo céu azulado do amanhecer do dia, os 1.300 metros de extensão do tapete feito de serragem, areia e cal marcaram, na manhã de hoje (4), a tradição da celebração de Corpus Christi em Capanema, nordeste paraense.
Filha do município, a cabeleireira Maria de Nazaré de Moraes esperou por onze anos pela graça que, no dia da celebração do sacramento do sangue e corpo de cristo, lhe possibilita ver, a poucos metros da porta de casa, o tecer do tapete desenhado pelos jovens da própria comunidade. Ainda que alérgica à serragem utilizada para dar forma aos desenhos, não faltou dedicação para ajudar no trabalho. "Eu sempre sonhei em ter minha casa em uma das ruas que fazem o tapete e Jesus Cristo me ajudou a conseguir isso", emocionava-se, no momento que preparava a homenagem de agradecimento pela promessa. "Eles chegaram 20h e às 3h já tinham acabado. Eu sempre acompanho até o final, dou apoio, sirvo mingau, ajudo como posso".
Com tudo preparado às 7h, quando foi dado início à missa campal que antecedeu a caminhada, pelo 39 ano foi possível manter a homenagem capanemense que desde 2001 é reconhecida como patrimônio histórico e cultural do Pará. "O tapete é um trabalho que expressa a fraternidade. Se na vida conseguíssemos todos os dias trabalhar em conjunto, em parceria desse jeito seria maravilhoso", destacou o bispo da Diocese de Castanhal, Dom Carlos Verzeletti, ao relacionar o gesto ao tema da festividade nesse ano, 'Eucaristia: pão da fraternidade'. "Jesus fez de sua vida uma doação, por isso ele diz 'este é o sangue e o corpo de Cristo'. Depois dessa missa devemos viver a fraternidade tal qual ele ensinou".
Após permanecer 19 anos morando fora da cidade natal, a estudante Elaine de Vasconcelos tentava captar a mensagem escolhida como tema da celebração deste ano através da doação e ajuda mútua que resultou no grandioso tapete de serragem que coloria as ruas de Capanema. Comparando o sentimento despertado com o provocado nos católicos de Belém no período do Círio de Nazaré, ela não escondia o orgulho pelo trabalho realizado pelos capanemenses em mais esse ano. "Parece que quanto mais tempo passa, fica mais lindo o tapete. Eu fico muito orgulhosa de ver esse trabalho que é feito, na maioria, pelos jovens e até crianças que se reúnem aqui para fazer isso juntos", destaca. "Se outros católicos pudessem vir aqui ver essa tradição, com certeza ficariam maravilhados. Para nós de Capanema é como o Círio de Nazaré pra Belém".
Moradora de Capanema já há 50 anos, a aposentada Marina Ramos também não deixou de se emocionar com o trabalho realizado pela comunidade. Observando o tapete que, mesmo após o caminhar da procissão, ainda se mantinha belo, ela recordava o tempo em que ela mesma era uma dos que coloriam as ruas para a passagem do Santíssimo Sacramento. "Eu ajudava quando era mais nova. Cada comunidade tinha o seu setor e ficava responsável por enfeitar uma parte, como é até hoje", explica, em meio às lembranças que chegam fáceis. "Eu lembro que uma vez nós fizemos a imagem de São Francisco, outro ano fizemos uma hóstia... eu fico orgulhosa de ter feito parte um pouco dessa história".
Passada a caminhada que seguiu logo após a missa sobre o tapete que contornava parte da cidade até retornar à Igreja Matriz de Capanema, a poeira levantada pelas vassouras dos profissionais da limpeza que recolhiam a serragem e a areia do chão deixou uma nuvem de esperança pela mensagem que fica. "O importante é que depois daqui, todo mundo possa praticar os ensinamentos de Cristo, né? Não é apenas o rito, tem que ficar essa mensagem a todos os católicos", ressaltou, com sabedoria, a senhora de 78 anos.
(Diário do Pará)
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