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População ainda desconhece transporte aquaviário

P: Por que o modal hidroviário é tão pouco utilizado na região amazônica? R: Acho que isso se deve à falta de tradição. Apesar de a Amazônia se movimentar pelas vias aquaviárias, as pessoas que detêm a decisão no país não têm sensibilidade em relação a e

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P: Por que o modal hidroviário é tão pouco utilizado na região amazônica?

R: Acho que isso se deve à falta de tradição. Apesar de a Amazônia se movimentar pelas vias aquaviárias, as pessoas que detêm a decisão no país não têm sensibilidade em relação a essa malha hidroviária, não têm o nível de conscientização já existente na Europa, em países como Holanda, Bélgica, França e Alemanha, por exemplo. Os próprios Estados Unidos utilizam bastante a bacia do Mississippi. Já o Brasil, que tem talvez o maior potencial hidroviário do mundo, se utiliza muito pouco esse potencial. Eu diria que falta massa crítica, no país, que pense nas hidrovias como meio de economicidade para a nação.

P: A Faculdade de Engenharia Naval, criada pela UFPA há apenas dez anos, não vai suprir essa carência de massa crítica, de formação de consciência e geração de conhecimentos?

R: Sem dúvida. Esperamos mudar esse quadro com a massa crítica que estamos formando, a nível de graduação e agora já com mestrado. Estamos atuando no sentido de formar pessoas que tenham mais consciência dos problemas da nossa região, que ajudem a pensar melhor as soluções hidroviárias e de projetos de embarcações para a Amazônia. A gente sabe que isso não é uma coisa imediata, é uma coisa que demora algum tempo, não acontece do dia para a noite, mas o importante é que estamos fazendo a nossa parte. Antes, tudo o que havia nesta área estava do Sudeste do país. Até os cursos nesta área estavam lá. Hoje, estamos criando essa massa crítica aqui na nossa região. Isso, a meu ver, é muito importante.

P: O curso de Engenharia Naval ainda é pouco conhecido, embora já tenha sido apontado pelo MEC como o melhor do Brasil. Exatamente em quais áreas de conhecimento a faculdade atua?

R: No projeto pedagógico do curso, na visão geral da criação da faculdade, nós procuramos pegar as principais áreas que lidam com o transporte hidroviário – a hidrovia, a embarcação e o porto. Então nós formamos alunos, aqui na universidade, para as três áreas de atuação. Em se tratando de um curso de Engenharia Naval, é claro que o foco principal abrange o projeto da embarcação, a construção, o projeto estrutural, enfim, tudo o que é relacionado à embarcação. Mas dentro do curso, nós inserimos também disciplinas que lidam com obras hidroviárias, obras de erosão de margens, proteção, balizamento de rios, projetos de hidrovias. Então, temos diversas ações na área hidroviária, bem como na portuária. Nós temos disciplina de portos também na graduação. Assim sendo, quando o nosso aluno se forma em engenharia naval, como engenheiro naval pleno, ele carrega na sua bagagem formações adicionais nas áreas de hidrovias e portos. No mestrado, já na pós-graduação, tem uma área específica para o transporte aquaviário. Então ele pode fazer a tecnologia naval, que é a engenharia naval pura, ou pode fazer a parte de transporte aquaviário, que envolve planejamento de transporte, obras portuárias, logística e obras hidroviárias.

P: Que cenário o senhor vislumbra para o futuro do transporte naval na região, a partir da disseminação do conhecimento gerado pela universidade?

R: Em relação à Faculdade de Engenharia Naval, o nosso objetivo é torná-la um centro de excelência em pesquisas navais, hidroviárias e portuárias, como já existem em alguns países, como Holanda e Bélgica, por exemplo. Entretanto, a gente sabe que o caminho é longo e custoso, os recursos envolvidos são altos, porque nós temos que criar laboratórios, tanque de hidrodinâmica, tanque de certificação de embarcações e por aí vai. O que importa é que estamos avançando. Já criamos o curso de engenharia naval, um curso com nota A junto ao MEC, criamos o mestrado, este ano, em parceria com a Universidade de Southampon, na Inglaterra, que é uma das maiores universidades de ensino da engenharia naval do mundo, e estamos agora em busca de equipar o nosso laboratório. O nosso sonho é que a gente possa, em curto prazo, começar a desenvolver pesquisas relacionadas a hidrovias. Quanto ao futuro da engenharia naval, acho que esta é uma área com futuro promissor na Região Norte, já que ela não está aqui, como está no Sudeste do Brasil, tão dependente do financiamento público, especialmente da Petrobras e da Transpetro. Nossas demandas aqui estão mais vinculadas ao setor privado. São frotas de balsas para o transporte de soja, minérios, empurradores, embarcações de passageiros. Eu vejo o transporte naval com um potencial muito grande de crescimento, porque o Brasil finalmente começa a ver a Região Norte como a grande saída logística do país. Se o Brasil quiser algum dia ser um país competitivo no mercado internacional, ele vai ter de investir num transporte mais barato, e o transporte mais barato é a utilização das vias navegáveis. E na Amazônia está, convém não esquecer, a maior rede hidroviária do planeta. Ao Brasil, basta ter um plano de utilização dessas hidrovias.

(Diário do Pará)

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