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O Pará inteiro é refém da violência

Rumando em direção à beira do Rio Açaí, os hábitos do pescador Nazareno dos Santos, 49 anos, tiveram de ser alterados. Quando iniciou a vida de pescador em Vigia de Nazaré há 32 anos, as necessidades inerentes à profissão lhe tiravam de casa ainda na prim

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Rumando em direção à beira do Rio Açaí, os hábitos do pescador Nazareno dos Santos, 49 anos, tiveram de ser alterados. Quando iniciou a vida de pescador em Vigia de Nazaré há 32 anos, as necessidades inerentes à profissão lhe tiravam de casa ainda na primeira hora da manhã. Hábito que, hoje, não é sequer considerado.

Enraizada em Belém, a predominância da violência já chegou, 100 quilômetros depois, ao município do nordeste paraense.Tecendo a rede que possibilita o desenvolvimento da principal atividade produtiva de Vigia já com o sol alto, Nazareno tem uma avaliação própria sobre a situação em que chegou a violência no município do interior. “Tá quase idêntico a cidade grande. Aqui tudo tem. Assalto, morte... meu Deus, é tudo!”, evidencia, referindo-se aos mais variados tipos de crimes. “Eu tenho medo de sair de casa. Antes eu vinha trabalhar 1h, 2h, agora saio de casa só depois das 5h”. Relembrando os tempos em que o município era sinônimo de calmaria, o morador não hesita em avaliar que houve aumento da criminalidade em Vigia. “Antes era muito tranquilo. Mas a violência vem aumentando de um jeito que tá todo mundo preocupado”.Especialmente preocupado com a própria segurança desde que viu de perto os efeitos da violência, o vigiense Geraldo Barbosa consegue estimar o período em que a situação começou a piorar. “De cinco anos pra cá a violência tá muita mesmo.

Vigia mudou muito mesmo. É droga, assalto, roubo, morte...”, enumera, relembrando o medo provocado pela abordagem sofrida. “Eu estava voltando do trabalho 22h quando apareceram três malandros. Com arma de fogo eles levaram a minha bicicleta, o meu dinheiro e o meu relógio. Ninguém mais quer sair de casa nesse horário. Até de dia na Vigia tá complicado”.Ultrapassando os limites do concreto, a violência no município segue pela água, onde, segundo os pescadores, na segunda semana deste mês mais um barco foi alvo de piratas. Também pescador, Geraldo afirma que nem o rio é mais seguro. “O pescador hoje tem medo”, afirma, categórico. “Agora só dá pra sair se for quatro, cinco barcos juntos porque se tiver um barco solitário eles assaltam mesmo. Antes não existia isso na Vigia, era calmo demais”.

Agência Incendiada

Impossibilitados de usar a agência de um banco público desde que a mesma foi incendiada, moradores do município de Santa Izabel do Pará, já há 42 quilômetros da capital e parte da Região Metropolitana de Belém, também conhecem bem o medo provocado pela violência. Nascida e criada no município em 2014 já possuía uma população estimada de 65 mil pessoas, a aposentada Raimunda de Souza, 82 anos, já não reconhece a cidade onde criou os oito filhos. “Tá muito violento. Demais, demais, demais...”, reforça, como se tentasse convencer a si mesma da nova realidade .

“A gente não tem mais segurança de nada”.Já desapegada do hábito de aproveitar as tardes sentada na porta de casa, a senhora que já quase não sai de casa não consegue escapar das notícias que chegam aos montes. Situação agravada desde que o batalhão da Polícia Militar mudou do prédio em frente a sua casa para outra rua da cidade. “Quando eles ficavam aí eu me sentia um pouco mais segura. Eu confiava em Deus e neles, mas eles tiveram que mudar pra outro prédio. Eles passam aqui fazendo ronda, mas mesmo assim a gente fica com um pouco mais de medo”, recorda a mudança, há cerca de três meses, provocou alterações também em sua rotina. “Quando eu soube que eles iam mudar daqui de frente eu mandei gradear a casa toda. Tenho muito medo de acabarem entrando aqui em casa”.Apesar de reconhecer que a violência no município não tem hora e nem lugar de maior prevalência, a professora Tatiane de Souza, 32 anos, acredita que ao menos um box da polícia poderia amenizar a violência na rua em que mora a avó. “Já que eles tiveram que mudar porque esse prédio era alugado, poderiam colocar pelo menos um box da polícia aqui nessa rua”, acredita. “Tá demais a violência. Sábado retrasado [30 de maio] um homem entrou no supermercado se passando como representante de vendas, fez a dona refém e levaram tudo. Toda semana é uma notícia”.

Orações paradas com tiros

Com 537,62 quilômetros quadrados cortados pela Rodovia PA – 140, o município de Santo Antônio do Tauá, distante 59 quilômetros de Belém, também já percebe uma rotina de insegurança. Ainda na noite do último dia 10, uma comerciante local que tem medo de se identificar teve as orações interrompidas por tiros. “Essa noite mesmo estávamos na igreja e tivemos que correr pra fechar as portas porque começamos a ouvir tiros. Duas casas próximas ficaram com marca de tiro na porta”, recorda a mulher, receosa de contar mais detalhes. “Nesse último domingo também [7 de junho] amanheceu um baleado”.

Moradora de Santo Antônio do Tauá há quatro anos, quando se mudou junto com o marido de outro município do interior do Estado, a mulher que mantém um pequeno comércio em uma das ruas sem asfalto da cidade vive apreensiva. “A gente só fica na grade. Quando dá 11h30 a gente já se tranca todo. O nosso medo é que durante uma confusão acabem entrando aqui armados”, declara. “Desse ano pra cá piorou muito a violência. Esse ano de 2015 tá complicado mesmo. Todo dia é tiro. Antes isso era raridade pra cá”.

Mais distante da PA-140, nem a zona rural do município escapa. Com apenas 15 dias de uso, o celular da professora Joanete Miranda foi levado das mãos da filha por força de uma arma de fogo. “Moro na zona rural e a violência tá horrível até lá. É roubo, morte, tudo”. Na rua principal que detém grande movimentação na cidade, a professora lembra outro problema que aflige a população do interior do Pará. “A gente já entra no banco com medo. O tempo todo tem assalto a banco. Eu já nem venho mais sozinha, venho sempre com o meu marido”, considera. “Eu moro aqui há 26 anos e nunca vi desse jeito. Antes a gente dormia até com a porta aberta e agora até as casas da zona rural tão todas gradeadas”.

(Diário do Pará)

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