Diante da grande repercussão das denúncias feitas por ribeirinhos de Barcarena, na região do Baixo Tocantins, contra a multinacional Bunge, que foram publicadas pelo Diário no domingo, dia 31 de maio passado, pesquisadores do Instituto Evandro Chagas estiveram no município no começo de junho e coletaram amostras de água do Furo do Arrozal para exames. Em reunião com lideranças e moradores das comunidades atingidas pelas atividades de transporte, armazenagem e exportação de soja da Bunge, os agentes do IEC ouviram os relatos sobre as doenças que afetam grande parte da população local e encaminharam um relatório à direção do órgão para decidir sobre a realização de uma campanha de amostragem para coleta de sangue, urina e cabelo, a fim de identificar as causa e os tipos de doenças.
“Vamos fazer comparativos do material que será colhido com outros exames que foram feitos durante os últimos quatro anos na região e avaliar a dimensão do problema”, disse o médico Marcos Mota, explicando que nesta primeira visita eles não tinham estrutura para coletar amostras das pessoas. “O Evandro Chagas é sensível às solicitações da comunidade para tentar elucidar as questões que ocorrem e prejudicam as pessoas, mas temos que conhecer os problemas para organizar os trabalhos”, prosseguiu Mota.
Para o trabalho de coleta de material humano o Instituto precisa montar uma equipe completa, com médicos, enfermeiros e técnicos. Além de Mota, formaram a equipe os químicos Kelson Faial e Amilton Costa e a bióloga Samara Pinheiro. Um dos relatos que os pesquisadores ouviram foi do pescador João Baia, pai da adolescente Taiane, de 13 anos, que sofreu dores abdominais, tontura, falta de ar, dor de cabeça e desmaios.
Há uns 10 dias ela desmaiou e bateu o rosto no chão, ficando bastante machucada. Segundo o pescador, o fato ocorreu depois que uma barcaça da Bunge carregada de soja estragada ficou ancorada na frente da casa dele, no Furo do Arrozal, durante um mês. Como o odor da soja apodrecida ficou insuportável, o fato foi comunicado à Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas). Ainda assim os técnicos da Semas encontraram um grande parte da soja estragada na embarcação.
Os pesquisadores do Evandro Chagas também pediram desculpas, em nome do Instituto, alegando falta de comunicação, por não terem atendido antes o pedido de providências feito pelos moradores e lideranças comunitárias no ano passado e estranharam a ausência do Ministério Público Estadual e das secretarias estadual e municipal de Saúde na reunião e no processo. “O Evandro Chagas age em toda a Amazônia e geralmente atende recomendação do Ministério Público, mas desta vez o órgão não está presente, assim como as duas secretarias de Saúde, estadual e municipal, não sabemos por que”, disse Marcos Mota.
O pesquisador Kelson Faial informou que no momento só poderia coletar amostras de água do Furo do Arrozal, mas garantiu que a equipe multidisciplinar do Instituto deve ser formada o mais rápido possível. Os pesquisadores seguiram de barco pelo Furo do Arrozal até o local onde havia uma barcaça ancorada e coletaram água. Em seguida retornaram a Belém.
O representante do Conselho Tutelar de Barcarena, Adenilson Araújo, participou da reunião e disse que também procurou o Ministério Público para pedir providências urgentes a fim de resguardar os direitos das crianças e adolescentes que estão sendo afetados pela atividade da Bunge em grande número.
(Diário do Pará)
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