Os movimentos populares ligados à Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Fetraf) continuam bloqueando um dos ramais usados por empresas terceirizadas da multinacional Bunge, impedindo o transporte de combustíveis que abastecem os empurradores que conduzem as imensas barcaças no transporte de soja.
A decisão de fechar o ramal, localizado dentro do assentamento Fazendinha, com barricada de pneus, foi tomada depois das lideranças terem encaminhado vários pedidos de providências aos órgãos públicos estaduais e federais, como Ibama, Sema, Secretaria de Saúde (Sespa) Instituto Evandro Chagas e Ministério Público Estadual. Depois da publicação das denúncias, apenas o Instituto Evandro Chagas esteve na comunidade para dar explicações e fazer a coleta da água do rio, próximo do local onde estão as barcaças ancoradas.
A Bunge, multinacional do ramo de alimentos, se instalou em Barcarena em 25 de abril de 2014 e desde então os moradores das redondezas, a maioria ribeirinhos, perderam o sossego por causa das atividades da empresa, cujo porto, em Vila do Conde, comprovadamente foi construído apara receber uma quantidade bem menor de soja do que recebe atualmente.
“São cerca de 600 carretas e 100 barcaças de soja que chegam por mês a um porto que não foi preparado adequadamente para receber tanta carga, por isso, os problemas começaram a aparecer e as barcaças começaram a atracar por toda a extensão do rio Arrozal, arrancando a vegetação do mangue e a mata ciliar”, afirma Bosco Oliveira Martins, presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Fetraf).
De acordo com Bosco, também não houve preparação das estradas para receber o tráfego intenso das carretas da multinacional. “Eles usam as estradas e todos os ramais como se fossem donos, não respeitam ninguém e destroem o que restou de asfalto e de ruas, além de impedirem que os agricultores trafeguem de motos, bicicletas e carroças para escoarem a produção”, afirma.
No caso das mortes de dois pescadores e uma dona de casa e a denúncia de contaminação de mais de 200 moradores ribeirinhos, atribuídas ao transporte e armazenamento de soja e seu despejo no rio, na região do porto, somente um exame mais aprofundado poderá determinar as causas. Os ribeirinhos acusam órgãos de fiscalização de não aparecerem em Barcarena para apurar o que é denunciado, deixando as famílias à mercê da situação.
Para a Bunge, não existe qualquer relação entre os problemas de saúde citados pelos ribeirinhos e a operação do terminal de cargas da empresa em Barcarena. Segundo a empresa, nos 10 terminais portuários onde ela opera no Brasil, incluindo em dois dos maiores portos do país – Santos e Paranaguá – onde há densidade populacional maior do que na região de Barcarena, “nunca houve relato de nenhuma questão de saúde similar”.
E sustenta que desde o início das obras do terminal, em nenhum momento, a Bunge ou a Unitapajós – empresa criada para o transporte da soja de Miritituba, em Itaituba, para Barcarena - receberam relatos de problemas de saúde da comunidade do furo do Arrozal. A cada 15 dias, no máximo, prossegue a multinacional, a Unitapajós realiza visitas à comunidade local e nunca foi informada sobre esses casos, tampouco foi notificada pela Secretaria Municipal de Saúde.
As duas empresas desconhecem a relação entre essas questões e as operações com a barcaças ou no terminal, mas diz que, de toda forma, já está buscando apurar junto às lideranças da comunidade o que pode estar ocorrendo.
A operação de transporte de soja por barcaças, que ocorre pela hidrovia Tapajós-Amazonas, é realizada pela Unitapajós, empresa parceira e prestadora de serviços logísticos para o Terminal Fronteira Norte (Terfron). “A Unitapajós possui uma autorização provisória da Marinha para abarrancar as barcaças na região do furo do Arrozal e está com um projeto em andamento de fundeio definitivo, eliminando, assim, qualquer possível impacto nas margens”, relata a Bunge.
Ela informa que está acompanhando de perto as ações da Unitapajós para solução do problema o mais rapidamente possível, destacando que a região do furo do Arrozal possibilita o fundeio seguro das barcaças, sem prejuízo à navegabilidade do rio pela população local ou a sua utilização pelos ribeirinhos. Por isso, é eventualmente utilizada pela empresa para esse fim, quando necessário, para garantir a segurança da operação do Terminal.
Sobre o fluxo de caminhões e barcaças na região, a empresa garante é adequado à capacidade projetada para a operação do Terminal e foi “devidamente aprovado pelas autoridades municipais, estaduais e federais”.
(Diário do Pará)
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