Você conhece o comandante do Batalhão da Polícia que atua no seu bairro?”. Ainda que o tempo de moradia no mesmo local já se estenda por gerações, o questionamento do vice-presidente do Observatório Social de Belém, Ivan Costa, desperta uma reflexão claramente pouco discutida na Região Metropolitana de Belém (RMB). Mais do que investimentos que proporcionem a intensificação de atitudes repressivas, o desenvolvimento de estratégias de combate à criminalidade pode e deve estar intimamente ligado à participação efetiva dos demais setores da sociedade.
Referindo-se a um modelo que prima pela integração entre a polícia e a comunidade antes mesmo que os crimes sejam executados, Ivan Costa vê a comunicação como uma das saídas para o problema da violência crescente. Comunicação essa que inicia com a premissa básica do reconhecimento dos próprios responsáveis pela proteção e os protegidos. “A participação da sociedade é essencial porque a polícia por si só é insuficiente. Hoje a comunicação da sociedade com a polícia está restrita, em regra, ao 190 [número do disque-denúncia]. Quando em perigo, população aciona”, evidencia, incisivo. “Não temos implantada a cultura da polícia comunitária, onde a comunidade conhece os policiais que atuam em sua área. O policial que está pra proteger não conhece o protegido e vice e versa. Queremos que o policiamento se apresente pra comunidade.”.
Bairro histórico da capital paraense, parte da Cidade Velha já vem sendo alvo da tentativa de implantação dessa nova forma de atuação, iniciativa que surgiu de um grupo de moradores que cansados de lidar isoladamente com os constantes casos de violência. Mais do que acionar a polícia quando um crime já aconteceu, a relação mais próxima pretende, através de setores que vão além do policial, discutir formas de evitar novos crimes. “Aqui na Cidade Velha estamos tentando melhorar a comunicação com a polícia. Criamos um grupo no WhatsApp onde o comandante do batalhão que atua na área está no grupo. O grupo se comunica e aponta os problemas”, explica Ivan. “Combinamos com o comandante do 2º Batalhão um contato através do oficial interativo (policiais que fazem as rondas diariamente no bairro) a quem relatamos a situação e que dá retorno da nossa demanda”.
Em funcionamento desde fevereiro deste ano, Ivan acredita que alguns resultados já são percebidos na comunidade. “Esse grupo permitiu um aumento da sensação de segurança porque todos se olham. Recentemente uma moça foi roubada e quando colocou informação no grupo, rapidamente a bolsa dela foi encontrada jogada no chão. As pessoas estão se comunicando, se integrando”, aponta, destacando a importância da mobilização da comunidade como um todo. “Nossa proposta é preparar uma experiência local pra ter viabilidade e convencer que o melhor caminho é ter a polícia atuando em contato com a comunidade. A polícia hoje acaba apanhando calada, sofre a pressão da população, mas não pode falar que a responsabilidade é da inércia das outras secretarias”.
Cientes de que a atuação da polícia não é a única responsável por amenizar a violência, o grupo de moradores já pensa em se integrar, em outros setores do poder público. “A população que vive em situação de rua precisa ter um atendimento. Já existem grupos religiosos que fazem um trabalho, mas a prefeitura e o estado ainda não se conectaram corretamente com eles”, identifica. “Esses grupos possuem a confiança dessa população e Estado não possui. Então estamos tentando ver de que forma podemos cobrar essa atenção do poder público”.
Saída: investir mais em educação.
(Diário do Pará)
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