Às três horas da madrugada desta quinta-feira (25), a professora Bethânia Gomes viaja com a família - o marido e dois filhos, para a cidade de Goiânia. Não é um passeio, nem uma viagem a trabalho. Trata-se de uma nova vida que a família de belenenses vai buscar em outra cidade. Uma vida que, acreditam, será de menos violência e mais tranquilidade.
Há cerca de cinco meses, Bethânia vive sob a sombra do pânico de andar em Belém, de passear, de fazer atividades simples do dia a dia. O motivo: ter vivido uma tentativa de sequestro do seu bebê dentro de uma loja de material escolar, em pleno comércio na capital paraense.
No início do ano, Bethânia estava com os filhos e uma tia idosa comprando material escolar. Era dia. Um casal se aproximou deles: o homem puxou o filho caçula do colo de Bethânia e tentou levá-lo. A professora segurou o filho e se afastou com a família. Minutos depois, o homem reaparece, com uma criança no colo, dizendo: "Chama ele de maninho, que ele vai ser teu irmão". Tentou pegar novamente o filho de Bethânia. O coração da professora disparou. Ela foi chamar os seguranças, mas quando conseguiu acioná-los, o casal já havia sumido da loja.
"Fiz o Boletim de Ocorrência no mesmo dia. O escrivão se negou a escrever que seria uma tentativa de rapto, se negou a escrever o nome da loja - pois disse que 'queimaria' o empresário - e disse que era um caso isolado e que nunca acontecera em Belém", conta a professora. O Boletim de Ocorrência foi feito na Delegacia da Cremação."O homem tentou pegá-lo duas vezes, mas eles não colocaram no B.O. Disseram que só precisava relatar uma das tentativas", detalhe a professora.
Se para a Polícia foi apenas um caso isolado, para Betânia, não!! Foi a pior sensação da sua vida, e a segunda vez que foi vitima em Belém.
A professora já havia sofrido um sequestro relâmpago em 2013, no Reduto."Quando li o relato de uma mãe que teria sido vítima há pouco tempo de um caso assim, lembrei na hora do que vivi. No meu caso, fiz B.O. Mas o que adiantou? Ninguém me ligou. Ninguém investigou! Quantas mães não vão às delegacias e se deparam com a recusa do escrivão de escrever o que foi realmente vivido?", questiona.
A ideia de se mudar de Belém só foi confirmada como plano após o triste episódio:"Goiânia é uma cidade perigosa também, conhecida inclusive pelo rapto do menino Bernardo. Mas se você chegar lá, tem a sensação de mais segurança. Não parece casos de violência em cada esquina, na escola, em festas de aniversário, dentro de lojas... Não chega nem perto de Belém, onde a gente anda vendo assalto direto", desabafa.
Betânia reconhece que todo e qualquer lugar do Brasil tem violência, mas um detalhe na vida dela e da família, a faz sair de Belém. "Estamos com pânico da cidade. Foi aqui que fomos vítimas. E o pior, não vemos nada de melhorias. Para quem já viveu uma situação como essa, sabe que as lembranças ficam na mente". O marido de Betânia, que é corretor de imóveis, já está na cidade de Goiânia há um mês, e organizou tudo para a mudança da família.
Bethânia com o marido e os filhos. Esperança de uma vida nova, com mais paz... em outra cidade! (Foto: Arquivo Pessoal)
"Não adianta o Governo dizer que não tem violência. É algo que a gente sente, convive e infelizmente, todos os dias, somos vítimas. Admitir que não tem problema, não nos encoraja a ter esperanças de dias melhores".
Para muitos, Bethânia pode estar apenas fugindo da violência, para outros, em busca de uma vida melhor. O que você acha? Mande a sua história e a sua opinião pra gente! redacao@diarioonline.com.br
(Bernadeth Lameira)
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