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Pará é esquecido de projeto de energia solar

Uma ação divulgada com destaque pelo Governo Federal anuncia o que pode ser uma solução barata e não poluente para a crise hídrica e a necessidade se garantir o abastecimento de energia do país. O Ministério de Minas e Energia lançou, recentemente, edital

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Uma ação divulgada com destaque pelo Governo Federal anuncia o que pode ser uma solução barata e não poluente para a crise hídrica e a necessidade se garantir o abastecimento de energia do país. O Ministério de Minas e Energia lançou, recentemente, edital para um projeto de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico (P&D) com o objetivo de captar energia solar dos grandes reservatórios de usinas hidrelétricas do País.

A proposta estaria sendo festejada por ambientalistas e por comunidades ribeirinhas paraenses - que ainda sofrem com a falta ou má qualidade do abastecimento de energia -, não fosse por um pequeno detalhe: o Pará, Estado que mais fornece energia hídrica para todo o Brasil, foi deixado de lado no projeto.

A ideia do Governo é espalhar milhares de metros quadrados de boias com painéis solares sobre os espelhos d’água das usinas para gerar energia. Para o projeto piloto que está sendo licitado, foram escolhidos os reservatórios das usinas de Sobradinho, na Bahia, que é o maior do país em área alagada e é controlado pela estatal Eletrobras/Chesf; e o de Balbina, no Amazonas, controlado pela Eletrobras/Eletronorte, considerado um dos piores custos benefícios do mundo, pela pouca energia gerada em detrimento da imensidão de seu lago artificial.

“A pesquisa é fundamental, mais do que nunca. Mas o que causa estranheza é o fato de terem deixado de lado o lago da maior usina hidrelétrica genuinamente brasileira em operação, que é Tucuruí”, observa o senador Jader Barbalho (PMDB), que protocolou, no último dia 2, um ofício fazendo uma série de questionamentos ao ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga (PMDB-AM).

“O Pará, mais uma vez, fica de fora de um projeto que, dando certo, só vai trazer benefícios. Para o nosso Estado ficam apenas os ônus de megaprojetos hidrelétricos”, diz Jader.

CIÊNCIA IGNORADA

O edital para contratação de empresas cooperadas que vão implantar os dois projetos piloto - em Balbina e em Sobradinho – foi divulgado no dia 28 de maio, com prazo de encerramento de apresentação de propostas em 30 de junho. Para o senador Jader Barbalho, além do prejuízo do ponto de vista de soluções energéticas para o Pará, fica seriamente prejudicada a comunidade científica paraense que, lembra o senador, possui avançados estudos no campo de energias alternativas.

A Universidade Federal do Pará (UFPA), por exemplo, mantém o Grupo de Estudos e Desenvolvimento de Alternativas Energéticas, coordenado pelo professor João Tavares Pinho, uma das maiores autoridades nacionais em energia fotovoltaica (obtida a partir de luz solar). O grupo desenvolve atividades de pesquisa de fontes renováveis de energia, em parceria com pesquisadores de outras universidades do Brasil.

“Essas fontes renováveis são ainda mais importantes aqui em nossa região, porque nós temos um grande potencial de biomassa e de energia solar. Por outro lado, temos carência muito grande, já que, de todas as regiões, a nossa é a maior e que possui mais sistemas isolados. A melhor maneira de atender a esses lugares é através das fontes descentralizadas locais: solar, biomassa, hidráulica de pequeno porte”, ressalta Pinho.

INTERIOR ESQUECIDO

O problema apontado pelo pesquisador fica explícito nos dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O mapeamento do Pará mostra que nas áreas rurais apenas 61,5% dos domicílios tinham energia elétrica fornecida por companhias de distribuição.

Um total de 150 mil famílias, ou cerca de 500 mil pessoas, em todo o Pará, continuam até hoje sem contar com o benefício da energia elétrica em suas residências.

De acordo com reportagem recente do DIÁRIO, o Programa Nacional de Universalização do Acesso e Uso da Energia Elétrica, o Luz para Todos, não conseguiu atender a esta parcela da população. A maioria dos que vivem sem energia reside em áreas que não podem ser alcançadas pelas redes de distribuição.

Nestes casos, as ligações têm custo consideravelmente alto, pois linhas alimentadoras requerem investimentos pesados, mas de baixo retorno. O irônico é que grande parte desta população sem energia vive em baixo dos linhões de transmissão de energia de Tucuruí, que saem do Pará para abastecer todo o Brasil por sistema interligado.

País ignora potencial 40% maior que o da Alemanha

O Instituto Ideal de Santa Catarina apresentou um estudo sobre o potencial de aplicações para energia solar no Brasil e indicou como principais características o nível de irradiação solar no país, que é 40% superior ao maior nível de irradiação solar na Alemanha, que detém o maior mercado de energia solar do mundo e cujo território é equivalente ao estado de São Paulo.

“Se fossem instalados sistemas fotovoltaicos sobre o lago da Usina Hidrelétrica de Itaipu (área de 1.350 km2), a energia elétrica gerada seria equivalente à metade da demanda nacional”, ressalta o estudo feito pelo instituto catarinense.

Apesar desta vantagem peculiar ao Brasil fazer parte de vários estudos, a geração de energia através de painéis fotovoltaicos somente começou a fazer parte de projetos governamentais a partir do ano passado, quando um leilão de energia realizado pelo governo contratou 31 usinas solares, nenhuma delas no Pará.

Foi a primeira vez que o governo comprou exclusivamente energia solar. Das 31 plantas de geração de energia solar previstas para serem construídas nos próximos anos, 14 serão erguidas na Bahia.

Ao todo, a capacidade total negociada no leilão foi de 1.048 MW. Neste ano, novos leilões de geração devem contratar mais projetos solares.

Estudos feitos pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) apontam que o uso pleno do potencial solar do País poderia gerar até 287 mil gigawatts/­hora por ano somente no ambiente residencial. Isso equivale a mais de duas vezes o consumo residencial de energia contabilizado atualmente.

No documento encaminhado ao ministro de Minas e Energia o senador Jader Barbalho aborda esta exclusão da comunidade do Pará nos projetos que tratam do aproveitamento de energia solar no Brasil.

“Considero louvável a iniciativa do Ministério de Minas e Energia, de realizar estudos com vistas ao aproveitamento do potencial energético de fontes renováveis, como é o caso da energia solar”, considerou, ressaltando, no entanto que, revendo a lista de empreendimentos leiloados nos últimos tempos pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), “verifica-se que são de energia eólica e PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas), em sua quase totalidade, empreendimentos de médio porte localizados em muitos e diferentes municípios e Estados da federação brasileira. Nenhum, porém, no Pará”.

ENERGIA IGNORADA

40% superior ao da Alemanha é o potencial de irradiação solar do Brasil. A Alemanha lidera o mercado de energia solar do mundo.

287 mil gigawatts/hora por ano para residências é o que Brasil pode gerar com a energia solar. É o dobro do consumo atual no País.

15 mil megawatts (MW) é o que painéis solares sobre reservatórios podem somar ao sistema elétrico do país. É mais do que as capacidades da Hidrelétrica de Belo Monte (Altamira) e da usina de Jirau (RO).

Metade da demanda elétrica nacional poderia ser gerada com sistemas fotovoltaicos instalados sobre o lago de Itaipu.

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(Diário do Pará)

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