Aos poucos, o Brasil vai se livrando de um dos maiores pesadelos ambientais do planeta: a poluição por meio de resíduos de embalagens de agrotóxicos. Desde o início da década passada, com a promulgação da Lei Federal nº 9.974 de 2000 e do Decreto Federal nº 4.074 de 2002, a gestão pós-consumo das embalagens vazias de defensivos agrícolas passou a ser recolhida pelas próprias industrias de agrotóxicos. De lá para cá, mais de 330 mil toneladas do material foram recolhidas no país. O programa, chamado de Campo Limpo, é desenvolvido pelo Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (Inpev), entidade sem fins lucrativos criada pela indústria fabricante de agrotóxicos. Para compartilhar com a sociedade esses resultados e benefícios gerados pelo sistema, no dia 18 de agosto é comemorado o Dia Nacional do Campo Limpo.
O Pará conseguiu destinar este ano, no período de janeiro a junho, 74 toneladas de embalagens pós-consumo, um aumento de 34% em relação ao mesmo período no ano passado. Mas o volume ainda é muito pequeno, considerando o tamanho do território paraense e sua vocação para a agricultura. Em todo o Brasil, no primeiro semestre do ano, o Sistema Campo Limpo destinou de forma ambientalmente correta 24.690 toneladas de embalagens de defensivos agrícolas pós-consumo em todo o país. Comparada ao mesmo período de 2014, a logística do material alcançou um crescimento de 8,5%.
No período analisado, o Pará e os estados de Santa Catarina e Mato Grosso do Sul obtiveram maior crescimento percentual na quantidade destinada. Já as cargas mais volumosas saíram do Mato Grosso, Paraná, Rio Grande do Sul, Goiás, Bahia e Minas Gerais- juntos, eles correspondem a 75% do total destinado.
LOGÍSTICA REVERSA
A coleta em todo Brasil é feita pelo Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias, que faz a gestão pós-consumo das embalagens vazias de seus produtos. O sistema é chamado de logística reversa de embalagens vazias de agrotóxicos. A coleta funciona como uma cadeia de responsabilidade, que começa no momento da compra do agrotóxico. As revendas dos produtos – sejam cooperativas ou distribuidoras - são obrigadas a colocar na nota fiscal, o local de recebimento dessas embalagens. Depois disso, a indústria fabricante recolhe, e fica responsável por enviar para a reciclagem ou encaminhar para destino final.
Este sistema abrange todas as regiões do país e tem como base o conceito de responsabilidade compartilhada entre agricultores, indústria, canais de distribuição e poder público. Existem 110 centrais e 270 postos de recebimento de embalagens em todo o Brasil.
Em 1999, antes da edição da Lei Federal nº 9.974/2000 e do Decreto Federal nº 4.074/2002, pelo menos 50% das embalagens vazias de defensivos agrícolas eram doadas ou vendidas sem qualquer controle; 25% tinham como destino a queima a céu aberto, 10% eram armazenadas ao relento e 15% eram simplesmente abandonadas no campo.Além de atacarem diretamente a saúde humana, os resíduos dos químicos se acumulam no solo, na fauna e na flora, e muitas vezes chegam a contaminar lençóis freáticos. Não só consumidores, mas também os trabalhadores rurais são os principais atingidos pelo poder destrutivo desses produtos químicos.
Brasil é maior consumidor de agrotóxicos do mundo
Atualmente, o Brasil é referência na logística reversa de embalagens vazias de agrotóxicos. Noventa e quatro por cento das embalagens plásticas primárias (aquelas que entram em contato direto com o produto) são retiradas do campo e enviadas para a destinação ambientalmente correta.Ao todo, 80% do total dessas embalagens comercializadas são corretamente destinadas. Índices como esses colocam o Brasil na posição de referência mundial sobre o assunto, ao destinar percentualmente mais embalagens plásticas do que os países que possuem sistemas semelhantes: Brasil 94%, Alemanha 77%, Canadá 73%, França 66%, Japão 50%, Polônia 45%, Espanha 40% e Austrália e Estados Unidos 30%.Segundo o Inpev, a iniciativa gera resultados positivos para o meio ambiente e sociedade.
O Instituto ressalta que a coleta das embalagens já evitou que 447 mil toneladas de CO2 fossem emitidas. O volume corresponde a um milhão de barris de petróleo que deixaram de ser extraídos.
GARGALOS
Mas ainda há muito o que fazer neste campo. De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, desde 2008 o Brasil passou a ser o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. O mercado brasileiro de agrotóxicos cresceu 190% nos últimos 10 anos, um ritmo muito mais acentuado do que o do mercado mundial, que foi de 93% no mesmo período, segundo a Anvisa, órgão responsável por liberar tais produtos no país.
Para se ter uma ideia, apenas no ano de 2012 o setor agrícola brasileiro comprou 823.226 toneladas de agrotóxicos, sendo que muitos deles são proibidos em vários outros países.
(Diário do Pará)
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