Você sofreu com a falta d’água que atormentou a Região Metropolitana de Belém (RMB) no início deste mês? Muito provavelmente, sim. Se não, certamente conhece alguém que passou pela inusitada seca na região que faz parte da maior bacia hidrográfica do mundo. Afinal, foram mais de 500 mil vítimas do descaso do Governo do Estado para com a questão do abastecimento. Gente carregando baldes de água na cabeça, empurrando carrinho-de-mão com garrafões de mineral, estourando adutoras para ter um pouco do líquido que é sinônimo de vida. Enquanto tudo isso acontecia, o governador Simão Jatene permanecia calado. Durante quase duas semanas, a Companhia de Saneamento do Estado do Pará (Cosanpa) prometia que o abastecimento seria retomado no dia seguinte, mas nada mudava. E Jatene calado, como se não fosse dele a culpa pelo tormento que os moradores da RMB tiveram de passar.
PRECARIEDADE
Ao menos, para uma coisa aqueles dias de seca serviram. Eles escancararam a precariedade no sistema de abastecimento e distribuição de água no Pará e evidenciaram o sucateamento a que foi relegada a Cosanpa. E o problema é ainda maior e mais complexo, afetando igualmente a capital e o interior. As reclamações se acumulam e se espalham em várias cidades e regiões carentes, como a Ilha do Marajó.
Esse descaso com a prestação de um serviço essencial à população vem provocando a revolta e mobilização dos moradores. Foi o que ocorreu recentemente em Breves, maior município daquele arquipélago, com mais de 100 mil habitantes, onde a população passa por graves dificuldades com o abastecimento. Para cobrar uma solução e chamar a atenção das instituições e autoridades, o Movimento pelo Direito ao Uso da Água (MDUA) articulou uma audiência pública com o Ministério Público do Estado (MPE), ocorrida no último dia 9, numa escola de Breves, com a presença de mais de 600 pessoas.
O cenário na cidade é grave. Em Breves, os habitantes são constantemente acometidos por doenças relacionadas à água contaminada, principalmente as crianças, vítimas de verminoses com diarreias, vômitos, febres e Hepatite A. Segundo relatório da entidade, o abastecimento nas residências se restringe aos moradores do centro e do bairro Riacho Doce. Mesmo assim, a água chega em períodos bem limitados: cerca de duas horas pela manhã e duas horas pela tarde.
Há, no entanto, uma questão ainda pior: a água que chega às torneiras dos brevenses não é de boa qualidade. De acordo com o MDUA, na maioria dos bairros periféricos, mulheres, crianças e pessoas idosas são obrigadas a puxar carros de mão com garrafões de água tirada dos rios e igarapés, carregando baldes na cabeça e disputando o líquido fornecido por carros-pipa - quando estes aparecem.
Quem consegue juntar dinheiro, se apressa em comprar bomba d’água e instalar encanação. Ainda assim, não raro a água é contaminada. “Muitos dependem da chuva para encher baldes e caixas-d’água. Ou recorrem aos poços artesianos, nem sempre confiáveis”, diz a representante do MDUA, Carla Vasconcelos. “Geralmente, o próprio povo precisa comprar o produto para higienizar a água, pois os agentes de saúde não o distribuem, ou o fazem de forma insuficiente”.
Para o MDUA, movimento popular nascido em Breves em 2011, o que está acontecendo no município há décadas é uma grave violação de um direito humano fundamental: o direito à vida, já que a vida não é possível sem água. “Estamos exigindo medidas urgentes na solução do problema. Além de responsabilizar e punir, quando necessário, as autoridades pela não prestação de um serviço básico e imprescindível ao ser humano”, destaca Carla.
Nada ilustra melhor a situação vivida pelos habitantes de Breves do que a unidade da própria Cosanpa no lugar. De acordo com o MDUA, para abastecer a cidade, a companhia possui uma estrutura com suprimento de manutenção de R$ 500 e apenas três funcionários. “Isso não dá para nada”, reclama.
(Diário do Pará)
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