Ao contrário do que aconteceu em São Paulo, onde, das 3,6 mil escolas de ensino médio da rede pública, 68%, ou 2,4 mil, não tiveram mais da metade de seus alunos no exame, no Pará foi registrado um alto comparecimento.
O Enem é gratuito para quem é da rede pública. O exame abre as portas para as universidades federais de todo país. A Lei de Cotas permite a reserva de 50% das vagas para alunos de escolas públicas e o resultado do exame é usado também para obtenção de bolsas do ProUni e Financiamento Estudantil (Fies) em instituições privadas. Por isso atrai muito mais alunos de escolas públicas e sobretudo de estados mais pobres do país.
Mas se os resultados das provas não são suficientes para garantir vagas para alunos mais carentes, de que adianta então fazer o exame? Para o especialista em educação, Alexandre Oliveira, coordenador da maior plataforma de dados sobre educação do Brasil, o QEdu, que reúne números do Censo Escolar e outras bases de dados públicas criadas a partir de dados oficiais, como o Portal Ideb, o Mais Enem, e a Provinha Brasil Meritt, falta aos estudantes paraenses o incentivo para o aprendizado.
Alexandre - que já esteve no Pará para desenvolver um projeto de educação - destaca o distanciamento entre os municípios paraenses como um dos fatores para os baixos resultados nos exames. Segundo ele, as escolas do interior do estado têm realidades diferentes das localizadas nos grandes centros urbanos, e por isso refletem a falta de insumos e incentivos nos resultados.
“O governo do Pará não consegue fazer o papel indutor. É papel do Estado reduzir as desigualdades, mas isto não tem acontecido no Pará”, diz Alexandre. Para ele, o ensino é comandado por uma elite política que não considera a educação como um valor do cidadão. “Não há interesse por parte do Estado em tornar equânimes valores que deveriam ser os mais importantes , como a educação e o atendimento à saúde do cidadão”, criticou.
Ele ressalta a experiência do Ceará, onde as ações de incentivo para a participação nas provas do Enem, vem gerando resultados positivos. As escolas públicas cearenses estão entre as que obtiveram melhores notas no Exame Nacional do Ensino Médio no ano passado. Alexandre Oliveira explicou que o governo daquele estado incentiva a participação dos alunos e custeio transporte e hospedagem para alunos que moram em regiões afastadas. No Ceará, só 6% das escolas não estão na lista do Enem.
"No Ceará a educação é uma política de Estado. Há muitos anos deixou de ser projeto de governo para se tornar uma política, independente do partido ou governante que estiver no comando”, ressaltou Alexandre Oliveira. Para ele , o governo do Pará não precisaria “inventar” nenhuma nova metodologia, pois já existem excelentes projetos implantados no Brasil. Em todos eles a secretaria estadual de educação cumpre o papel de aumentar o nível de equidade. “A rede estadual induz as redes municipais”, explica.
O incentivo à participação dos alunos nas olimpíadas de conhecimento, como a de matemática, ciências, entre outras disciplinas, também deve ser feito pela estrutura estadual de educação, diz Alexandre. “Desta forma o governo cria a dimensão de que estudar é bom, é divertido. Cabe ao Estado colocar a questão da aprendizagem e do estudo como valores do ser humano, mostrar que o estudo é importante, é relevante. Mostrar que o estudo aumenta as oportunidades e abre caminhos para a vida”.
(Diário do Pará)
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