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Pará tem a menor renda per capita da saúde no país

Com 56 anos de existência, o Hospital Universitário João de Barros Barreto é a única referência, no Pará, para doenças infecto-contagiosas como a tuberculose, a meningite e a leptospirose, males que ainda afetam populações que vivem em condições precárias

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Com 56 anos de existência, o Hospital Universitário João de Barros Barreto é a única referência, no Pará, para doenças infecto-contagiosas como a tuberculose, a meningite e a leptospirose, males que ainda afetam populações que vivem em condições precárias de saneamento e sem acesso à saúde básica. Com o incêndio no Pronto-Socorro Municipal Mário Pinotti, o PSM da 14, a direção do Barros Barreto foi cobrada para contribuir com o município, uma vez que o hospital recebe recursos do Sistema Único de Saúde (SUS) que são repassados pela Prefeitura de Belém.

Nesta entrevista ao DIÁRIO, o médico Antônio Rocha, diretor do Barros Barreto, fala de investimentos na saúde pública, do caos em que o setor se encontra no Estado e diz que o hospital já não pode atender a casos de urgência e emergência na área de trauma, como foi cobrado pelo prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho.

P: O Barros Barreto foi alvo de muitas reclamações, em anos anteriores, pelas condições em que se encontrava. Que avaliação o senhor faz hoje do hospital?

R: Estamos passando por um processo de transformação, conseguindo viabilizar obras. Isso passa por um processo complexo, desde a centralização dos recursos até a viabilização dos processos licitatórios. Ocorreram dez reformas de abril de 2014 até agora. Elas estão 99% concluídas. Isso é até um feito dentro da saúde pública, com todos os prazos cumpridos.

P: Tem-se falado muito em cortes para a área da educação. De que forma, elas podem atingir o Barros Barreto, que é um hospital universitário?

R: Tivemos informações de que a Universidade Federal do Pará (UFPA) sofreu um corte de R$ 58 milhões. Consequentemente, deve acontecer a redução de recursos. Nossa única fonte de arrecadação fixa é a contratualização, da qual nós recebemos exatamente R$ 1,8 milhão fixo, além do valor que depende do faturamento individual dos prontuários, das internações.

P: O que é a contratualização?

R: É um acordo, vamos dizer assim. Como nós estamos na gestão plena da saúde, o nosso gestor é o município. Então 100% dos nossos serviços são destinados ao SUS (Sistema Único de Saúde) e quem gerencia é o município.

P: Qual a média de gastos por paciente no hospital?

R: Em torno de R$ 5 mil. Os prontuários faturados individualmente ficam em torno de R$ 600.

P: Como vocês estão se preparando para os cortes que podem vir ?

P: Por causa dessa diferença entre o que gastamos e o valor faturado, já temos um déficit orçamentário mensal que gira em torno de R$ 1,6 milhão.

P: A universidade cobre esse déficit?

R: A universidade tem dado essa cobertura até hoje. Não sei como vai ser daqui pra frente. Nós estamos encontrando algumas outras alternativas, como parcerias importantíssimas, como é o caso da Ceasa, que de janeiro até agora já nos forneceu em torno de 11 toneladas de alimentos. Daqui pra frente, a situação vai se tornar um pouco mais difícil. O fato é que, historicamente, os recursos nunca foram suficientes.

P: O Barros Barreto é o único hospital de referência em doenças infecto-contagiosas no Pará...

R: Isso é muito sério. Nós precisamos, urgentemente, criar outras referências. Não podemos ser a única referência em HIV do Pará. Hoje detemos 99% dos leitos de HIV do Estado. Também somos a única referência em meningite, leptospirose, doença de Chagas. É preciso descentralizar esses atendimentos. Além do fato de que a gente precisa qualificar a atenção básica. Isso evita a sobrecarga de serviço nos prontos-socorros. Pronto-socorro é para fazer apenas urgência e emergência, e, primordialmente, na área de traumatologia.

P: Por falar em pronto-socorro... Com o incêndio do PSM da 14, o Barros Barreto deu algum tipo de apoio ao município?

R: Na época do incêndio, nós fomos contatados e fizemos o levantamento emergencial do quantitativo de leitos que poderíamos colocar à disposição da Prefeitura (de Belém). Mas a gente não poderia só disponibilizar os leitos. Nós precisaríamos de recursos humanos, de insumos e medicação. Esse trabalho foi feito e repassado. Acredito que esteja em estudo, na Secretaria de Saúde do município.

P: Mas vocês efetivamente já estão colaborando?

R: Nossa maior colaboração, dentro das nossas limitações, é abrir as portas do Barros Barreto, para que sejamos supervisionados, e eles confirmem que a nossa taxa de ocupação se aproxima de 100%. Aqui, os leitos ficam desocupados, no máximo, por meia hora.

P: Houve críticas, por parte do prefeito Zenaldo Coutinho, de que o Barros Barreto não estaria colaborando. Ele disse que tinha havido extinção de leitos no hospital. Houve, mesmo?

R: Essa diminuição dos leitos ocorreu pela própria conjuntura. Em agosto, completamos 56 anos de existência. E a estrutura do Barros Barreto é praticamente a mesma desde a inauguração. Precisamos fazer reformas e adequações. Tivemos de reduzir o número de leitos, para poder concluir o CTI (Centro de Tratamento Intensivo) pediátrico, para poder abrir dez leitos de UTI adulta. Em breve, teremos 20 leitos de CTI. Então, são adaptações que a própria conjuntura nos obriga a fazer.

P: O senhor concorda com o prefeito, que disse que o Barros Barreto não está colaborando com o município neste momento de crise?

R: Não. Se alguém falou isso, essa pessoa desconhece a realidade da saúde pública no Estado. O Barros Barreto tem a missão de qualificar e formar profissionais. E fazemos isso com muita propriedade. Nosso hospital é o maior formador de profissionais de saúde no Estado. Contribuímos com a assistência. Mas não podemos carregar todo o peso dessa responsabilidade no Estado. Hoje, a população da Região Metropolitana de Belém gira em torno de 2,5 milhões de habitantes. Somos o hospital que dá o maior número de diagnósticos em tuberculose. Ou seja, a nossa atenção básica está falhando na hora de dar o diagnóstico. Como a gente pode querer que uma instituição que hoje tem 214 leitos, 14 isolamentos e a unidade de diagnóstico em meningite, atenda a toda essa demanda do Estado?

P: E abrir para urgência e emergência? Vocês teriam condições de fazer isso?

R: De maneira nenhuma. Não é a nossa referência.

P: Como o senhor avalia, hoje, a saúde no Estado e no município?

R: A solução para os problemas é relativamente simples. Mas tem de haver um planejamento.

P: Qual seria a solução?

R: Precisamos investir na prevenção. É muito mais barato prevenir do que tratar doenças. É preciso investimento na atenção básica, no saneamento. Essa é a base de um povo saudável.

P: Na sua opinião, quem são os culpados pelos problemas?

R: É o sistema. Você sabia que a menor renda per capita da saúde, no Brasil, é a do Pará? Então, você, brasileira, paraense, que está aqui, é menos dos que estão lá fora. Por quê? Me explique isso!

(Diário do Pará)

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