Vencida a fase de adaptação, o pequeno aparelho, implantado às proximidades da orelha esquerda, levaram o professor Jherikson Andrade, 28 anos, para dentro das lembranças presas apenas na memória. Ouvidas 12 anos antes na companhia do pai, as músicas preferidas puderam chegar à percepção do jovem novamente a partir da introdução de uma prótese auditiva que capta e transforma os sons externos em impulsos elétricos: o implante coclear.
Sem conseguir ouvir desde os 11 anos de idade, em decorrência de uma caxumba, Jherikson conseguiu interagir com outras pessoas depois de aproximadamente um ano de adequação ao implante. No momento em que o aparelho foi ativado, o som ouvido foi bastante diferente do que suas lembranças guardavam. “Era um barulho metálico, mas a partir de um mês já começou a se organizar para mim”.
Vídeo mostra como funciona o implante coclear.
No primeiro ano de implante, o professor começou a reaprender algumas palavras. Mas foi no segundo ano, porém, que ele alcançou a habilidade de diferenciar as vozes de cada pessoa, condição que ainda hoje lhe causa grande emoção. Já habituado ao aparelho, o docente não apenas ensina língua portuguesa através da linguagem dos sinais para crianças surdas como também ministra a disciplina para alunos ouvintes da Educação de Jovens e Adultos (EJA). “Seria muito difícil trabalhar com alunos ouvintes se não fosse com o implante. Isso acabou abrindo portas para mim.”
PRIMEIRO PASSO
Esperança para quem não tem a possibilidade de ouvir, o implante coclear não pode ser encarado, porém, como a solução absoluta. Como no caso de Jherikson, a recuperação da audição é apenas o primeiro passo para o desenvolvimento da oralidade.
Otorrinolaringologista e um dos cirurgiões que integram o programa de implante coclear do Hospital Universitário Bettina Ferro de Souza (HUBFS), Diego Farias explica que a prótese é formada por uma parte interna, responsável por transformar o som ambiente em digital e que fica sob a pele, e uma externa, formada por uma antena que capta o som e se comunica com a parte inserida.

Para o professor Jherkison, o aparelho abriu novas oportunidades. Foto: Alzyr Quaresma
Implantada apenas após avaliação multiprofissional, a prótese só é indicada para os casos de perda profunda e em pacientes que possuem a cóclea – estrutura presente no ouvido interno, responsável por receber os sons - e o nervo auditivo íntegros. “Não é ainda a solução para qualquer tipo de perda de audição. A ideia é selecionar o paciente mais indicado”, explica.
No momento do pré-operatório, é levada em consideração também a probabilidade de o paciente conseguir desenvolver, com a máxima eficácia, a fala e a audição após a cirurgia. Tanto quanto a prótese, o treinamento pós-operatório é que vai indicar a eficácia do procedimento. “Quando o aparelho é ativado, geralmente um mês após a cirurgia, o que se escuta não é o resultado final. O implante requer uma rotina de acompanhamento”, diz o médico.
(Cintia Magno/Diário do Pará)
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