“A cerveja induz o cara a gastar mais. O cliente vai se soltando. Aí, já leva uma camiseta, um DVD, um blu-ray!”. É com essa sinceridade que Jorge Amador, 39 anos, analisa a rentabilidade de um negócio que ele criou e que se tornou o seu ganha-pão. De simples vendedor de CDs e DVDs de rock em uma barraca na Praça da República, ofício que começou aos 21 anos, o comerciante evoluiu para a Loja do Jorge, construída em sua própria casa, em 2009, na escondida Passagem Três Irmãos, no bairro do Marco. Ali, ele mantém a comercialização dos mesmos produtos, com um plus: a venda de cervejas artesanais para uma clientela seleta. O público é pequeno, mas fiel. São apenas cerca de dez clientes por dia, que têm à disposição 300 rótulos da bebida, com preços que variam de 20 a 250 reais.
São cervejas nacionais e importadas. Algumas delas, como o próprio preço sugere, não são para qualquer bolso. O espaço funciona de segunda à sábado, de 10h30 da manhã até o último cliente. São apenas quatro mesas, dispostas em uma sala refrigerada, confortável, com decoração e som para roqueiro nenhum botar defeito. O diferencial é que a loja é um lugar aconchegante e discreto para quem quer espairecer e bater papo, sem ser incomodado, o que em nada lembra o burburinho dos bares convencionais. Algo que agrada o contador Marcus Vinícius Moraes, frequentador assíduo. “Sou cliente há 7 meses. É um ambiente inusitado. O pessoal entra na passagem e fica até com receio, mas chega na loja e vê que é um ambiente super agradável”, diz Marcus. “Todo mundo que vem aqui se conhece. Vale a pena pagar um pouco a mais por isso”.
O pulo do gato de Jorge Amador foi descobrir que poderia lucrar mais tendo menos trabalho, com a escolha do produto certo. “Eu vendia cervejas convencionais, mas depois começaram a vir mais clientes, exigindo coisas melhores. Aí, passei a pesquisar as cervejas artesanais e comecei a vender”, conta o comerciante. “Desde outubro do ano passado, só trabalho com cervejas artesanais, especiais”. Foi um raciocínio simples. Uma long neck convencional, comercializada por cerca de R$ 5, dá menos lucro do que uma importada, que não sai por menos de R$ 20.
Golpe de marketing
Para testar a reação da clientela, ele foi ousado. Certo dia, tirou todas as cervejas comuns das prateleiras e escondeu. Quem entrasse no bar seria obrigado a comprar uma artesanal e, portanto, pagar mais por isso. Deu certo. “Desde então, resolvi não trabalhar mais com as comuns. Hoje, meu cliente passa menos tempo no bar, consome mais e o retorno é bem melhor”, justifica.
“Ainda agora, um cara levou duas cervejas, uma de R$ 100 e outra de R$ 90”. Outra bela ideia de Jorge. Em seu bar, não existe cozinha. O freguês come o que quer, do jeito que quer. “Eu permito que meu cliente peça delivery. Pode ser pizza, sushi, sanduíche. É mais cômodo para o freguês e econômico para mim, que não gasto com alimentos”.
Questionado sobre o sucesso da loja, mesmo num endereço tão escondido, apenas um funcionário e com poucos, mas fiéis, clientes, Jorge resume: “O cara vem aqui, bebe uma cerveja especial, sentado, assistindo a clipes de rock, num ambiente bacana e com ar-condicionado. O conforto e o prazer são nossos diferenciais”. E como em time que está ganhando não se mexe, Jorge Amador prefere não ampliar o espaço e deixá-lo do jeito que cativou a clientela. “Se eu for para um lugar maior, vou ter de contratar mais gente e gastar com folha salarial”.
O descontraído Jorge Amador só esconde o jogo quando o assunto é o faturamento do seu prazeroso negócio. Ele não revela quanto lucra por mês nem depois de vários goles, mas calcula que cada cliente gasta, em média, entre R$ 200 e R$ 250. Considerando que o bar/loja recebe dez pessoas por dia - informação que ele mesmo divulga -, fica fácil fazer a conta. O empresário não fatura menos de R$ 2 mil por dia. Tirando os custos do trabalho, dá para avaliar um faturamento líquido diário de, no mínimo, R$ 1 mil. Ou seja, R$ 30 mil por mês. Nada mal para quem começou vendendo CD e DVD no meio da rua.
(Luiz Octávio Lucas/ Diário do Pará)
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