No campus de pesquisa do Museu Paraense Emílio Goeldi, na avenida Perimetral, em Belém, duas salas-cofres abrigam milhões de peças do quebra-cabeça que podem ajudar a contar a história do homem na Amazônia e a fazer um retrato de como viviam nossos ancestrais. São as reservas técnicas arqueológica e etnográfica, formadas por peças reunidas desde que foi criada a instituição de pesquisa, no fim do século 19.
ACESSO RESTRITO
A reserva técnica arqueológica do Museu Goeldi está abrigada em uma sala de 360 metros quadrados, com temperatura e umidade do ar controladas por computadores. Apenas pesquisadores e técnicos têm acesso frequente ao local. Para entrar na sala, é preciso digitar uma senha, semelhante à que se usa para abrir cofres. Para tocar nas peças lá guardadas, os pesquisadores usam luvas e máscaras.
Todo esse cuidado não é exagero. A reserva é formada por nada menos do que 120 mil peças e cerca de 2 milhões de fragmentos coletados durante o trabalho dos arqueólogos na Amazônia, entregues por doadores ou vendidos por colecionadores ao museu. O DIÁRIO foi autorizado a fotografar algumas das peças que ajudam a contar nossa história.
Entre as preciosidades do acervo, uma das mais belas é uma ponta de flecha feita de quartzo. Mede 5 centímetros e raramente é fotografada. A idade da peça é estimada em mais de 5 mil anos. Foi encontrada nos anos 1960, no sítio arqueológico da Pedra Pintada, em Monte Alegre, no Pará.
RARIDADE
A existência da pequena flecha teve consequências inestimáveis para a ciência e para a história do homem na Amazônia. Ajudou confirmar a presença do homem na região há muito mais tempo do que imaginavam os primeiros estudiosos - e reforça as teorias de que o primeiro homem no continente americano era brasileiro, viveu na Amazônia, e não na América do Norte, como acreditavam os pesquisadores até os anos 1930.
O acervo do Museu Goeldi abriga ainda outra ponta de flecha, essa um pouco maior, cuja idade ainda não foi definida. O que se sabe é que não existem mais as culturas que produziram esses vestígios. Por isso, decifrá-los é um trabalho para os arqueólogos.
Uma dificuldade é que muitas dessas peças foram encontradas por caçadores de relíquias e tiradas do contexto, o que torna a missão mais complexa. No acervo, há também peças de cerâmica com idade entre 1 mil e 1.500 anos, como as urnas funerárias encontradas na região do Marajó.
De Santarém, do famoso sítio arqueológico de Taperinha, há cerâmicas com 8 mil anos de idade. Juntos, esses vestígios indicam que o homem ocupa a Amazônia há mais de 11.200 anos. “Aqui, estamos desvendando o passado, o presente e o futuro. Nossa história está guardada aqui”, diz a pesquisadora Maria Imázio, curadora da reserva arqueológica do Museu Goeldi, um verdadeiro tesouro amazônico.
(Diário do Pará)
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