O nome de Corina Ribeiro de Souza está escrito em uma folha de papel pregada na parede de um dos corredores do Pronto-Socorro Municipal (PSM) do Guamá. A identificação improvisada não informa a idade da paciente, estado de saúde, nem horário dos medicamentos. Mas lá está Corina, deitada em uma maca. Vítima por duas vezes. A primeira, de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). A segunda, da saúde pública de Belém.
Devido ao AVC, Corina, de 77 anos, tem os movimentos do corpo limitados e é totalmente dependente da filha, Marlene Souza, 42. É Marlene quem faz a higiene da mãe ali mesmo, no corredor, com as pessoas passando e outras, também em macas, observando. “É triste essa situação. Tenho de trocar minha mãe, colocar a frauda e preciso fazer isso aqui. Isso está um inferno’’, reclama a filha.
Há 1 mês, Corina espera ser transferida para outra unidade de saúde. Porém, não há leito para recebê-la. Mãe e filha não têm escolha, a não ser esperar. Marlene relata que, na tarde de ontem, viu quatro pessoas morrerem no PSM e fica temerosa que a mãe seja a próxima. O medo é o mesmo que sente Socorro Araújo Favacho, 54, ao ver a mãe, Maria Lúcia Araújo, 77, em situação semelhante.
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BÍBLIA
Junto à maca de Maria, Socorro abre a Bíblia e lê uns versos do Salmos 91. São os preferidos da idosa: “Não precisa ter medo de nada. Nem da doença que ronda pela escuridão. Nem do desastre que irrompe ao meio-dia. Ainda que outros morram a sua volta e caiam por todos os lados, você não sofrerá um arranhão. Você será protegido. Sim, porque Deus é seu refúgio”. As palavras confortam o coração das duas, mas a realidade permanece a mesma.
Até às 10h de ontem, Maria Lucia não havia se alimentado. A filha estava preocupada. “Ela teve AVC e eu quero uma transferência. Só que não tem leito. Deram um copo de leite às 22 de ontem (quarta-feira) e já são 10h (de quinta) e ela não comeu nada”, reclama.
Sem nenhum acompanhante, Carlos Alberto Vasconcelos, 59, permanece há três dias deitado no corredor. Diabético, sofreu um ferimento no pé esquerdo e necessita de uma limpeza cirúrgica. Ele não tem ideia de quando o procedimento será realizado. “Pode ser hoje ou amanhã. Não sei. O médico não disse e também não sei o porquê”, conta Carlos.
Dois metros acima dele havia um ar condicionado. Protegido apenas por uma estrutura quebrada em uma das pontas e amarrada por um tubo fino de sonda, o aparelho estava inclinado na direção do paciente. Dava a impressão de que a qualquer momento ia despencar. Carlos não tem como se mudar dali, as enfermarias estão lotadas. Caso se desloque, pode perder a vaga, que até no corredor é disputada.
Um homem não identificado, branco, com cerca de 35 anos, com cortes no rosto e no corpo, sem camisa e só de bermuda, foi colocado embaixo da cobertura do chagão central do PSM do Guamá. Ainda sangrando, estava deitado em uma das macas, mas nela não havia lençol nem colchão. O suporte para apoio da cabeça e estabilização da coluna foi improvisado com um pacote de papel higiênico. A Secretaria Municipal de Saúde (Sesma) foi procurada, mas não se manifestou até o fechamento desta edição.
Zenaldo não melhorou atendimento, diz comissão.
(Renata Paes/Diário do Pará)
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