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O fim da escravidão

Ao chegar à Espanha, o outro lado da rede de tráfico de mulheres já aguardava as duas brasileiras. Elas desembarcaram no aeroporto de Bilbao, no norte do país. À espera delas, estava um homem de meia idade, sozinho, na saída do aeroporto. “Ele já sabia qu

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Ao chegar à Espanha, o outro lado da rede de tráfico de mulheres já aguardava as duas brasileiras. Elas desembarcaram no aeroporto de Bilbao, no norte do país. À espera delas, estava um homem de meia idade, sozinho, na saída do aeroporto. “Ele já sabia quem nós éramos. Não sei como. Mas ele sabia”, conta Jô. O sujeito colocou as duas moças dentro de um carro e as levou a uma viagem cujo destino elas desconheciam. Sem falar espanhol, Jô mal tinha coragem de falar com o homem, muito menos de perguntar para onde estava sendo levada. No meio da madrugada, pararam para dormir, num hotel de beira de estrada.

No dia seguinte, chegaram ao destino: uma casa noturna, com mulheres circulando seminuas e fazendo shows de striptease, na pequena cidade de Ribadeo, onde hoje vivem apenas cerca de 10 mil pessoas. Jô e sua colega não tiveram tempo nem para descansar. Trocaram de roupa e já começaram a trabalhar. Na hora de dormir, num quarto com outras moças da boate - incluindo brasileiras -, ela foi alertada por uma das mulheres de que sua vida começaria a se complicar. Todos os seus documentos haviam sido confiscados pelo dono do lugar, com quem já tinha uma dívida de 3.500 euros - cerca de R$ 14 mil, em valores atuais -, referentes aos gastos da viagem, tarifas de bagagem, roupas e documentação. Enquanto não pagasse o que devia, Jô não poderia largar o emprego. E ainda havia o pagamento de 50 euros - R$ 200 - pela diária no quarto em que ela dormia na boate.
A única forma que ela tinha para quitar sua dívida era vendendo sexo. Com isso, porém, já estava acostumada. O problema maior era não ter mais a sua liberdade.

E a sensação de escravidão só aumentava. Até nas poucas vezes em que era autorizada a telefonar para sua mãe, no Pará, Jô era observada por uma pessoa enviada pelo dono da boate. Com isso, ela temia contar à mãe tudo o que estava acontecendo e sofrer ainda mais. Numa pequena cidade do interior da Espanha, sem falar o idioma local, com as dívidas aumentando e constantemente vigiada por empregados do patrão, Jô estava submetida a uma situação de cárcere privado. Era mais uma vítima do tráfico de mulheres no mundo. E não sabia o que fazer para voltar a ser uma mulher livre.

Dessa época, ela guarda, ao menos, uma boa lembrança, de um episódio que, não por acaso, aconteceu justamente na noite em que seu cativeiro teve fim, 3 meses após sua chegada à Espanha. Numa operação policial, a boate foi fechada e os proprietários e o motorista que fazia o transporte das mulheres foram presos. Com o fim do negócio ilegal, as mulheres que trabalhavam na casa tinham, diante de si, outro problema. Estavam livres, mas sem ter para onde ir nem onde ficar. A cena jamais saiu da mente de Jô. “Todas as meninas ficaram sentadas na calçada, em cima de suas malas”, lembra. Entre todas as suas colegas, uma em especial chamou sua atenção. “Uma garota estava com um ursinho de pelúcia no colo. Nunca esqueci dessa imagem".

(Diário do Pará)

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