Libertada do cativeiro e da rede de tráfico de mulheres, Jô precisava continuar trabalhando, para juntar dinheiro e poder voltar ao Brasil. E sua decisão foi a que lhe pareceu mais fácil e óbvia: seguir a vida de prostituta. Não foi difícil encontrar outra boate interessada numa brasileira de boca carnuda, pele morena e coxas grossas. Em poucas semanas, já estava novamente em ação. No novo local de trabalho, encontrou outras jovens, de vários países, em situação ainda pior do que a sua. “Algumas africanas diziam ter dívidas de mais de 10 mil euros - em torno de R$ 40 mil. Outras meninas da Romênia, muito novinhas, nunca tinham feito programa sexual na vida e nem sabiam que iam trabalhar como prostitutas”, conta.
Para Jô, no entanto, a vida estava infinitamente melhor do que fora nos seus primeiros meses em território espanhol. Pelo menos ela não se sentia uma escrava. Passou mais 9 meses nessa boate, juntou dinheiro suficiente para comprar um terreno para a mãe e poder largar a vida de prostituta. “É uma profissão muito difícil, sofrida”. Ela arrumou um namorado espanhol e começou a trabalhar num bar. Até que decidiu que era a hora de voltar para o Brasil. Queria retornar ao Pará. “Cansei de tudo aquilo. Aproveitei que tinha brigado com o namorado, juntei minhas coisas e comprei uma passagem para Belém”, diz.
CAUSA NOBRE
De tudo o que sofreu na Espanha, Jô destaca a falta de liberdade como a pior experiência da sua vida. “Eu sabia que tipo de trabalho eu faria lá. O problema foi ser privada da minha liberdade”, conta.
Para ela, que se diz uma mulher de alma livre e que sempre teve o domínio da própria vida, ser escravizada a milhares de quilômetros do seu país não poderia ser algo facilmente superado. Não foi. Mas ela conseguiu. Hoje, Josenilda Silva é mãe de dois filhos e trabalha como funcionária pública da rede municipal. E faz parte do Grupo de Mulheres em Movimento, que nasceu a partir de uma pesquisa de ação sobre migração, gênero, trabalho e tráfico de pessoas. No total, o grupo possui onze mulheres brasileiras da periferia de Belém que passaram por experiências similares à de Jô, no exterior. Durante 2 anos (2010 e 2011), essas mulheres se reuniram para falar sobre o tráfico internacional de prostitutas. Desses encontros, nasceu o livro “Mulheres em Movimento: Migração, trabalho e Gênero em Belém do Pará”, que detalha relatos dessas onze mulheres. No livro, porém, nenhuma delas mostra o rosto nem revela seu verdadeiro nome. Nesta reportagem, Jô se revela pela primeira vez, contando sua história sem medo de julgamentos. E faz isso por uma causa nobre. “Resolvi me expor dessa maneira porque há muitas moças prestes a cometer o mesmo erro que eu cometi. Acredito que meu depoimento pode ajudá-las a não cair nessa armadilha”, declara. “Tem muita gente que não sabe que existe esse mercado internacional de tráfico de mulheres”.
Ela própria desconhecia esse tenebroso universo, mesmo depois de entrar para a lista de vítimas. “Passei anos sem saber que eu tinha sido aliciada por traficantes de pessoas”, conta. O esclarecimento só veio em 2007, quando Jô conheceu a Sociedade de Defesa dos Direitos Sexuais na Amazônia (Sodireitos). Um dos temas debatidos no grupo era justamente o tráfico de pessoas. “Só então percebi que eu tinha estado naquele mundo”. Foi justamente dessa experiência de Jô na Sodireitos que surgiu o livro “Mulheres em Movimento”. Hoje, com a vida refeita, ela se diz uma mulher feliz e mostra força e coragem ao tratar do assunto. Sua única preocupação é não deixar que a mãe saiba do seu passado. “Minha mãe já sofreu muito na vida. Acho que seria mais uma culpa para ela carregar”, diz Jô, com os olhos lacrimejando. “Só decidi contar tudo nesta reportagem porque acredito que vai ajudar muita gente”. É o que todos esperamos.
(Fabrício Nunes/Diário do Pará)
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