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"O trânsito em Belém está em um beco sem saída"

Os números não deixam dúvidas. O trânsito se tornou uma guerra com dezenas de mortos todos os dias. Destrói famílias e provoca altos custos financeiros aos governos. Mudar essa realidade deve ser um compromisso coletivo. Em Belém, o desafio é ainda maior,

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Os números não deixam dúvidas. O trânsito se tornou uma guerra com dezenas de mortos todos os dias. Destrói famílias e provoca altos custos financeiros aos governos. Mudar essa realidade deve ser um compromisso coletivo. Em Belém, o desafio é ainda maior, dado o baixo investimento na estrutura viária. Mas, com educação, é possível tornar o dia a dia nas ruas da cidade menos pior. É o que defende o especialista técnico em trânsito Rafael Cristo, um dos coordenadores da Semana Nacional de Trânsito promovida pela Ordem dos Advogadas do brasil (OAB/Secção Pará), que vai até o próximo dia 25. Nesta entrevista ao DIÁRIO, Rafael Cristo fala dos problemas que enfrentamos todos os dias, sugere mudanças de comportamento, avalia o sistema viário de Belém e aponta caminhos para uma cidade mais amigável.

P: Quando se fala em trânsito, a gente imagina logo uma guerra entre pedestres, motoristas, ciclistas e motociclistas. É possível mudar isso?

R: O que há realmente é uma luta pelo espaço. A forma como se conquista esse espaço é um dos maiores desafios da mobilidade urbana e da segurança viária. Há muitos fatores comportamentais que interferem nessa questão. Essa disputa vem desde a família e se manifesta no trânsito, que se torna essa guerra. E os números são de guerra. São cerca de 100 mortos por dia no Brasil. Os gastos com acidentados só Hospital Metropolitano de Belém chegam a R$ 36 milhões por ano, sem contar a questão social de famílias que ficam desamparadas e de jovens que têm a vida alterada por essa batalha.

P: O senhor acha que é possível mudar essa realidade com a atual estrutura de trânsito que temos?

R: Precisamos repensar o modelo de cidade que queremos. É inadmissível a forma como estamos vivendo. Temos que valorizar o transporte coletivo sobre o individual, fazer investimentos em engenharia e em pessoal: qualificar e melhorar o atendimento. E o maior desafio é investir em educação, em todos os setores.

P: Há uma crítica constante, especialmente de motoristas quando multados: a de que o poder público não esclarece a população, apenas reprime. O senhor concorda?

R: Sim. É preciso investir mais em educação. A gente percebe que até as resoluções de trânsito falam pouco em educação. É preciso investir principalmente junto aos atores que não têm muito acesso, como pedestres. Você já viu pedestres tendo acesso à educação para trânsito? Não, exceto quando se torna condutor, mas as explicações são a partir de outra visão. A legislação fala sobre a gente se respeitar mutuamente no trânsito, não vemos isso. Recentemente, estava viajando de barco e, de repente, o motor foi desligado. Perguntei o motivo e me explicaram que ao lado estava passando um barco sem motor e a preferência é dele. Não se vê rotineiramente na via terrestre esse carinho com o mais frágil. Esse será o tema da nossa semana do trânsito: “Seja você a mudança”.

P: O que se vê hoje é o contrário. Todo mundo querendo ser o mais forte...

R: Isso ocorre, sim, e está ligado à necessidade de se entender que, quando se vai para o trânsito, a questão passa a ser coletiva, e não individual. O código de trânsito explica qual a conduta adequada. Quem vai dirigir precisa estar bem, planejar o percurso. E geralmente não se faz isso. As pessoas já saem atrasadas. E hoje o que se vê é um tentando ocupar o espaço do outro. Aqui na região Norte, é comum fechar o outro no trânsito, talvez seja da própria necessidade de se autoafirmar, o que é explicado pela psicologia do trânsito.

P: Desde o início das obras do BRT, o trânsito de Belém piorou muito. O senhor acha que com o fim das obras vá haver melhora?

R: Quando se fala em BRT, não pode se falar apenas em obra. É preciso pensar uma estrutura de longo prazo que, infelizmente, não foi pensada. BRT é uma modalidade de transporte. Teríamos que pensar na capital paraense e na Região Metropolitana para fazer uma distribuição mais racional do transporte na cidade. Não é a obra em si. As obras que estão sendo executadas não terão efeito nenhum na melhoria da vida das pessoas. Pelo contrário, se não for pensada na distribuição da modalidade do sistema de transporte, vamos viver com a mesma dificuldade.

P: O que o pedestre pode fazer para amenizar esses problemas no seu dia a dia?

R: A tendência mundial é diminuir as vias para os veículos e aumentar os espaços para os pedestres. É o que acontece hoje na Europa e é a tendência natural no mundo, visto que o Brasil assinou a Resolução 2 da Organização das Nações Unidas, que fala da década de ação para a segurança viária.

P: Os ciclistas são os que mais reclamam em Belém e realmente a cidade não tem estrutura para eles...

R: É. Não tem estrutura, mas a cidade oferece condições. Belém é uma cidade plana, que permite a integração entre as ciclovias e ciclofaixas. Temos que pensar em deslocamento sustentável. Muitas cidades estão avaliando a questão da velocidade pensando no ciclista e no pedestre. É o caso de São Paulo e de Curitiba. Na Almirante Barroso, pelo menos no corredor central, era necessário avaliar essa possibilidade, pelo menos na canaleta do ônibus expresso, até se implantar o tão sonhando BRT, porque hoje o que tem são ônibus passando na área central.

P: E o que os motoristas poderiam fazer para tornar o trânsito melhor?

R: Temos que lembrar que o homem é que domina a máquina. Não pode ser o contrário. Os veículos de grande porte têm responsabilidade pelos menores, os menores têm responsabilidade pelos não motorizados e todos têm responsabilidade pelo pedestre.

P: No dia a dia, o que a gente vê nas ruas são os maiores tentando impor a força sobre os mais frágeis...

R: Essa é a grande questão comportamental que nós estamos tratando na semana de educação no trânsito. Porque quando eu não sou condutor, sou pedestre e acho que o condutor é o errado. É preciso entender essa dinâmica e levar para o dia a dia. Esse o desafio que nós, educadores do trânsito, enfrentamos. Mas o Estado precisa investir em na educação, fiscalização e engenharia. Belém peca: não tem transporte de qualidade.

P: O motorista tem como reduzir o tempo no trânsito e o consumo de combustível apenas com mudanças comportamentais?

R: Não acredito. É preciso ter investimento em obras estruturantes. Investir em mobilidade urbana com fluidez. Belém tem estrutura, tem um traçado bem definido, áreas ociosas. Uma coisa que se poderia recomendar era buscar vias alternativas, mas geralmente essas rotas estão em lugares inseguros.

P: Então estamos, literalmente, em um beco sem saída?

R: É. Temos que investir em gestão de qualidade, comprometida com a mobilidade viária, pensando na segurança e economia, e Belém tem uma característica ímpar: temos como melhorar porque a cidade ainda tem espaço para se trabalhar a questão da mobilidade.

(Rita Soares/Diário do Pará)

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