Com uma valise emprestada e com poucas peças de roupa, Danielle seguiu para um caminho desconhecido e completamente inesperado. Com a sua perspectiva de vida bastante limitada no Pará, ela se viu no meio de um turbilhão de pensamentos durante a viagem. Algumas horas depois, quando percebeu, se viu sozinha, no aeroporto de Paramaribo, no Suriname, esperando alguém que nunca havia visto. “Fui chorando durante toda o caminho. Lembro que foi uma viagem horrível, de muita turbulência. O avião era pequeno. O que me deu mais força foi a dificuldade que eu estava passando aqui. Eu pensava muito nos meus filhos.
A esperança que eu tinha era de conseguir melhores condições para a minha família”.Como é de praxe no tráfico de mulheres, todas as descrições físicas de Danielle já tinham sido repassadas pela primeira agenciadora da rede de aliciadores, a vizinha de casa. Foram três horas no aeroporto, perdida em outra cidade e outro país, sem conhecer ninguém e sem falar holandês ou o surinamês – chamado popularmente de “Taki Taki”. Foi quando uma brasileira apareceu. “Me levou para um carro com motorista. Logo que entrei, me pediu os documentos. Eu inocentemente entreguei”. Danielle estava morrendo de fome. O carro parou em um restaurante. “Enquanto eu comia, reparei que ela anotou tudo o que consumi”.
Danielle foi levada primeiro para um clube de prostituição em Paramaribo. Mas aquele ainda não era o destino final. Depois seria uma boate chamada “Clube Dragon”, na cidade de Nickerie, que fica a duas horas de Paramaribo. “Era uma estrada rodeada de mato, parecia um interior, muito escuro. Já era noite e eu sentia muito medo. Muito medo mesmo. Quando cheguei, vi as luzes piscando. Em cima estava o nome da boate. Entrei pela escada do lado e me levaram para o escritório da gerente do clube, a ‘Silvana’. Todos os meus documentos ficaram com ela”.Durante a conversa com a gerente do clube, apesar de já ter percebido que se tratava de uma casa de prostituição, Danielle ainda não havia acreditado na armadilha que havia caído. Ao questionar sobre o suposto emprego em um restaurante, a dona da boate foi ríspida. “Desci a escada com ela até a boate. Vi mulheres seminuas, e no palco, dançando. E eram vários homens”.
Quando Danielle perguntou mais uma vez se ia trabalhar no restaurante da boate, ouviu: “Não! Tu vai ‘galinhar’ aqui. Vai ter que ‘dar em cima’ dos caras para fazer eles gastarem aqui. E vai pedir dinheiro para eles te darem comida, porque aqui a gente não dá”. Um angústia grande tomou conta de Danielle. Ela nunca havia se prostituído. Foi aconselhada pela gerente da boate a pensar nos filhos e na sua família, para se “inspirar”. ‘Silvana’ falou que ela já tinha uma dívida de 3 mil. Tudo, desde a foto 3x4 ao almoço que fez no caminho do aeroporto até a boate, foram anotados. “Se a gente descia para boate sem batom, era multada e somava na dívida. Tudo era pago por nós, até mesmo os preservativos”.Levou um mês para pagar a dívida. Os primeiros programas foram os mais difíceis. Ter seu corpo tocado, usado e vendido a fazia chorar. Mas a fome, o desespero e a solidão falavam muito alto. “Passei muita fome. Pedia dinheiro aos homens e até esperava outras meninas almoçarem, para que me dessem comida. Eu chorava muito. Não podia sair de lá. Ninguém podia”.
Uma vez, conseguiu falar com a mãe, por telefone. Mas ‘Silvana’, ficava sempre ao lado. Dizia o que eu tinha de falar.Danielle passou três meses se prostituindo. Mesmo depois de ter quitado a dívida, a gerente dizia que só poderia sair de lá depois de seis meses. E, ainda assim, só após pagar uma para a liberação dos documentos. Danielle só conseguiu sair da boate quando conheceu um surinamês. Ele era seu cliente e pagou a liberação dos seus documentos. O relacionamento depois se tornou conturbado e violento. Ela foi mantida em um novo cárcere privado, dessa vez presa em um hotel. “Eu resolvi fugir e ele acabou ficando com os meus documentos”. Mesmo assim, Danielle não podia voltar ao Brasil. Resolveu que era preciso arriscar uma nova oportunidade: ir para o garimpo. “Eu queria tentar uma última chance de conseguir dinheiro e voltar para a minha família”.
(Fabrício Nunes/Diário do Pará)
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