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Mulher relata vida escrava na Europa

Faz calor em Belém. Passa das 14h, no Porto da Palha, bairro da Condor. Encostada no batente do bar instalado no porto, Shirlene Souza da Silva, 28 anos, vestida de azul, nos aguarda de costas para o Rio Guamá. Após uma breve apresentação, entramos em um

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Faz calor em Belém. Passa das 14h, no Porto da Palha, bairro da Condor. Encostada no batente do bar instalado no porto, Shirlene Souza da Silva, 28 anos, vestida de azul, nos aguarda de costas para o Rio Guamá. Após uma breve apresentação, entramos em um barco e nos sentamos. No centro da embarcação, há um grande isopor com bebidas alcoólicas e bastante gelo. De gole em gole, os passageiros apreciam a travessia nas águas barrentas ao redor da capital. Atrás da cabine do comandante, uma caixa de som se mantém firme, presa por pregos e uma corda. Dos alto-falantes, no volume máximo, diversas músicas, todas de ritmos dançante, capazes de distrair - ou incomodar - qualquer pensamento mais elaborado.

Quarenta minutos depois, Shirlene nos avisa que vamos desembarcar. É quando ela nos apresenta sua casa, na margem do Rio Bijogó, na Ilha do Murutucu, em Belém. Tudo é feito de madeira. A escada, o trapiche, a ponte e a casa vermelha com detalhes brancos, cercada pela floresta amazônica. Sentada no sofá marrom da sala, ela começa a contar o drama que passou, quando resolveu tentar a vida na Alemanha e de tudo o que sofreu como babá, na Holanda, que a levou a passar por uma situação de trabalho escravo. Em um relato exclusivo e nunca antes divulgado em detalhes - assim como fizeram as personagens das duas reportagens anteriores desta série especial do DIÁRIO -, Shirlene nos contou a sua história.

Nascida em Belém, ela cresceu no interior, onde vivia com os pais. Aos 3 anos, começou a ir para a capital para estudar. “Por causa das dificuldades das escolas precárias do interior”, diz. Já adolescente, passou a morar com a avó, em Belém, e só voltava para a vida ribeirinha nos fins de semana. Quando terminou o Ensino Médio, conseguiu trabalho e começou a ganhar o próprio dinheiro. Mas era tudo muito difícil. “Comecei a trabalhar na feira do Guamá com uma tia. Ela vendia DVD e CD pirata. Depois consegui montar a minha própria banca”, relembra. Em 2007, aos 20 anos, Shirlene tinha acabado de dar à luz sua filha e estava passando por dificuldades financeiras. O trabalho na feira do Guamá não rendia o suficiente para ela e a bebê. Dois anos depois, em 2009, surgiu a oportunidade de buscar uma vida melhor na Europa. Uma amiga que morava na Alemanha convidou-a para ir para o país, onde poderia trabalhar como babá.

Havia, ainda, a grande vantagem de receber o salário em euro. “Essa amiga me ligou, soube da minha situação financeira, que eu estava trabalhando na feira, e perguntou se eu queria tentar a vida na Alemanha”, lembra. “Ela disse que me ajudaria a arrumar emprego lá. Aceitei na hora.” Com a ajuda da tia para a emissão dos documentos necessários para sair do Brasil, Shirlene organizou tudo para ir para a Europa, acreditando que seria a melhor alternativa para melhorar de vida. Não era. Ela entrou na Alemanha pensando em trabalhar com serviços domésticos, mas tinha visto de turista, cuja validade é de apenas 3 meses. “O problema foi no meu primeiro trabalho, na casa de uma holandesa, em Amsterdã.”

O convite para trabalhar na casa da holandesa, em Amsterdã, surgiu quando Shirlene já estava na Alemanha havia 1 mês. Ela sequer tinha acabado de pagar a passagem aérea, que tinha dividido com a tia. Aparentemente, o trabalho na casa da família holandesa seria fácil e simples. Ela só precisaria cuidar de uma menina de 12 anos. “A dona da casa me disse que eu só tinha de cuidar da filha dela, levar à escola, fazer companhia para a garota”. Pelo trabalho, receberia 200 euros por semana - cerca de R$ 900, nos valores atuais, o que daria R$ 3.600 por mês. “Para mim, era ótimo. Até porque a minha filha ficou no Pará, com a minha mãe”, conta.

Um dos problemas era a comunicação. A patroa só falava holandês. Shirlene não entendia nada. Ela trabalhou 15 dias, sem que a dona da casa falasse nada sobre pagamento. Na terceira semana, suas esperanças de receber pelos serviços domésticos começaram a evaporar. Mas havia outros problemas. Na Holanda, ela não conhecia ninguém. Sua amiga tinha ficado na Alemanha. Além disso, a patroa começou a controlar seus telefonemas. “Ela me impedia de usar o telefone e até tomou o meu celular”, conta. A falta de pagamento e o impedimento de se comunicar com amigos e familiares foram somados à carga abusiva de trabalho. Além de levar a menina à escola, Shirlene tinha de cozinhar para a família, lavar e passar toda a roupa, limpar a casa, lavar a louça. “Às vezes, ela me mandava fazer um bolo no meio da madrugada”, declara.

Para forçar a brasileira a aprender o seu idioma, a patroa criou uma regra: Shirlene só poderia fazer as refeições se falasse as palavras corretamente. “Se eu não acertasse tudo o que ela mandava eu dizer, eu ficava sem almoçar ou sem jantar”. Os métodos agressivos e sem nenhum respeito em tom de ameaça eram constantes durante os dias em que Shirlene morou naquela bela casa, em Amsterdã.

CONTATO COM O BRASIL

Começaram, também, as chantagens. A patroa sabia que o visto da sua empregada era de turista, com validade de 3 meses, e passou a usar isso para forçar a moça a permanecer no emprego, mesmo sem receber nada por isso. Até que um dia Shirlene conseguiu fazer contato com sua tia, no Brasil.“Consegui acessar a Internet, entrando no escritório dela, e consegui, finalmente, falar com a minha tia e contar tudo o que estava acontecendo”, conta. “Quando consegui esse contato, já fazia 2 meses que eu estava naquela casa e não tinha recebido nem um tostão”. E nunca recebeu. A situação piorou, até o dia em que a tia de Shirlene conseguiu entrar em contato com ela e contou que ia lhe buscar. “A minha tia me disse que todos os dias falava com ela (patroa) e todas as vezes ela dizia que eu não estava em casa ou que eu tinha saído”. Três dias depois, a tia de Shirlene e mais duas amigas foram resgatá-la do inferno que passou na Europa.Ela saiu da casa apenas com as próprias roupas e sem receber nenhum pagamento pelos 2 meses de trabalho. Hoje, Shirlene tem plena noção do que lhe aconteceu. “Ela falava que ia me pagar, mas nunca pagava. Ela sabia que meu visto ia vencer e usava isso para me segurar ali”, analisa. “Fui vítima de trabalho escravo. Eu me sentia nas mãos dela”. Mas sua temporada no Velho Continente ainda não havia acabado. Da Holanda, ela retornou à Alemanha.

(Fabrício Nunes/Diário do Pará)

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