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Danos do naufrágio afetam comunidade

Na infância, Venina Anjos da Silva, fugia de casa para brincar ao redor do Igarapé Dendê, em frente à comunidade São João, em Barcarena. Na juventude, quando não queria que ninguém a percebesse chorar por um amor não correspondido, ia afogar as mágoas nas

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Na infância, Venina Anjos da Silva, fugia de casa para brincar ao redor do Igarapé Dendê, em frente à comunidade São João, em Barcarena. Na juventude, quando não queria que ninguém a percebesse chorar por um amor não correspondido, ia afogar as mágoas nas águas mornas do mesmo igarapé. Já adulta, usa as águas do Dendê para lavar as roupas do marido e dos filhos. Hoje, aos 68 anos, Venina sente um aperto no coração, ao ver óleo, sangue e carcaças de bois poluindo o local que faz parte da sua vida. Tamanho dano ambiental é uma das consequências do naufrágio do navio Haidar, ocorrido na última terça-feira (6). A embarcação levaria cerca de 5 mil bois para a Venezuela. Mas afundou ainda no porto de Vila do Conde, causando a morte de mais de 4 mil animais, cujos corpos agora poluem o local.

Na manhã de ontem, a equipe de reportagem do DIÁRIO voltou ao lugar do acidente. O cenário é lamentável. Nas águas do igarapé, restos de vísceras, cabeças de bois, patas e buchos se misturam ao sangue dos animais. Há, também, muito óleo na água. Toda essa mistura tem produzido um mal cheiro insuportável aos moradores. “Eu me criei aqui. Estou achando tudo isso péssimo”, diz Venina.

Ela relatou que, na tarde de quarta-feira (7), viu moradores da comunidade pegarem um boi inteiro, tirarem a pele e levarem a carne. A carcaça do animal, com as peles, foi jogada no igarapé. “ Como vamos utilizar a água daqui? Isso está insuportável”, reclama ela.A poluição no Dendê veio pelas águas da praia do Conde, onde fica o porto que ocorreu o naufrágio. Após o incidente com o navio, o Corpo de Bombeiros interditou a Praia do Conde e de Itupanema, ambas poluídas pelo vazamento de 70 toneladas de óleo. No trecho da praia que fica atrás da Paróquia da Vila do Conde, é possível identificar manchas de óleo nas pedras. O vento traz o cheio forte da substância. Os poucos moradores que transitam pelo local não se arriscam nem a molhar os pés na água manchada de óleo, com receio de contrair alguma doença de pele.

Na comunidade Fazendinha, a 2 km da Vila do Conde, o pescador Ademir Oliveira, 64, conta que o óleo contaminou os peixes “Eu acredito que a situação vai ficar ainda pior, quando os corpos dos bois entrarem em decomposição”, diz. Também pescador, Marcelino Ribeiro, 65, está preocupado com a mulher e os cinco filhos. “Como vou sustentar minha família? Vou viver de quê?”, questiona, nervoso. “Os peixes estão todos contaminados”.

(Renata Paes/Diário do Pará)

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