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Moradores sofrem com fumaça do Lixão do Aurá

O orvalho suave e refrescante da manhã, que pairava pelas casas e ruas do Jardim Nova Vida, no bairro de Águas Lindas, em Ananindeua, foi substituído por uma fumaça cinza escura, sufocante e com cheiro de pneu e plástico queimado. Os moradores afirmam que

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O orvalho suave e refrescante da manhã, que pairava pelas casas e ruas do Jardim Nova Vida, no bairro de Águas Lindas, em Ananindeua, foi substituído por uma fumaça cinza escura, sufocante e com cheiro de pneu e plástico queimado. Os moradores afirmam que a fumaça apareceu desde os primeiros focos de incêndio, em setembro, no desativado Lixão do Aurá. Assim que amanhece e os moradores abrem as janelas, inalam a fumaceira vinda do lixão.

Segundo o líder comunitário Raimundo Nonato Hughes Filho, 45 anos, de 18h até às 6h30, a fumaça é visível no local. “Ontem eu não consegui dormir. A fumaça dói nos olhos, arde. Passei mal. Fui ao posto de saúde. A pele do meu rosto estava vermelha”, disse ele. “A gente sabe que é fumaça e não neblina porque sente o cheiro de queimado. Tudo vem para cá do lixão”, afirma o autônomo Mário Antônio Corrêa, 49 anos. Sara Albuquerque, 29 anos, é voluntária na escola infantil do conjunto. A escola tem apenas dois cômodos para receber 80 crianças. Ela conta que os alunos asmáticos passam mal, precisam ser liberados e encaminhados para atendimento médico.

RESPIRAÇÃO

Sara não tem asma, mas precisou recorrer aos aerossóis para respirar melhor. Ela reclama que os lábios ficam rachados, a garganta seca, a pele áspera e até a água tem gosto de queimado. “Tenho passado mal e deixado de ir trabalhar para ir ao pronto-socorro fazer aerossol. O problema é que até lá tem fumaça. Às vezes a gente tem que fechar a escola por causa disso. À noite, quem está ali naquele poste, numa distância de 10 metros, não consegue ver a frente da escola porque está só fumaça”, afirma. No final da Rua Amazonas, é possível visualizar a imagem turva de um homem vindo de bicicleta em meio ao nevoeiro cinza que o encobre. Ao se aproximar da metade do caminho, os vizinhos o reconhecem. É José Antônio de Almeida, 66 anos. “A gente passa mal. É uma fumaça que toma conta de tudo. Dá um ardume no nariz”, conta Almeida.

O final da Rua Amazonas e das demais transversais do Jardim Nova Vida dão acesso ao Lixão do Aurá. São visíveis o aterro sanitário do local e a fumaça que vem parar na comunidade. “O vento traz toda a fumaça. Tenho crianças em casa e já tive de sair de madrugada com elas para o posto de saúde”, diz o vendedor Holandino Tavares, 57. “Estamos numa área muito próxima ao lixão”.

Prejuízo ambiental é grande

De acordo com o diretor da Associação de Biólogos no Pará (Abiopa), Luiz Carlos Albarelli, os efeitos nocivos da fumaça atingem, também, animais e o meio ambiente. “Com a queima do lixo, são emitidos para a atmosfera vários produtos nocivos, sendo um dos principais o gás carbônico (CO2), grandes responsáveis pelo aumento do efeito estufa e aquecimento global”, explica.

O especialista enfatiza que apesar de os aterros sanitários serem comumente usadas pelos municípios para destinação final dos resíduos, o Lixão do Aurá excede o permitido. “As proporções da queima são imensuráveis. Além do CO2, podem se formar, com a incineração do PVC, presente em canos, tubos e produtos plásticos, gases como as ‘dioxinas’ e os ‘furanos’, compostos que se mantêm ao longo da cadeia alimentar, e tóxicos, que causam aumento da acidez de águas, dos solos, mortandade da flora e fauna, além de graves danos à saúde humana como lesões na pele, pulmões e câncer”, afirma ele.

De acordo com a Lei de Crimes Ambientais, causar poluição de qualquer natureza que resulte em danos à saúde humana, provoque a mortandade de animais ou a destruição significativa da flora, gera reclusão de um a quatro anos, e multa. Em nota, a Prefeitura de Belém informou que ainda é permitido o despejo de entulhos e resíduos da construção civil, constituídos de materiais inertes. Segundo as Secretarias Municipais de Saneamento (Sesan) e de Meio Ambiente (Semma), há fiscalização para evitar entrada de lixo domiciliar.

(Renata Paes/Diário do Pará)

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