Nas últimas semanas, o empresário Rômulo Maiorana Jr., dono do grupo que controla, entre outras firmas, o jornal O Liberal, esteve prestes a ter decretada sua prisão preventiva. Proprietário do jatinho que foi alugado, segundo o Ministério Público, de forma irregular ao governador Simão Jatene, Maiorana Jr. já havia sido convocado três vezes para prestar depoimento no processo sobre o caso. Em todas as ocasiões, porém, ele dava alguma desculpa para não se apresentar. Até que a Justiça cansou da ladainha do empresário e deu um ultimato: ou ele se apresentava na última quarta-feira (21) ou teria a prisão decretada.
O empresário entendeu o recado e acatou a intimação judicial. No seu depoimento, no entanto, alegou que comanda dezenas de empresas - ele é milionário e mora num verdadeiro palácio - e que assina centenas de papéis todos os dias. Sendo assim, não lembrava do tal contrato, no qual um dos seus jatinhos - ele é dono de dois aviões - foi alugado ao governador Jatene. Mas para a Justiça, o que importa é que a assinatura de Rômulo Maiorana Jr. está no documento. Portanto, ele ainda vai ter de se explicar nessa história toda. Até porque, segundo o MP, o contrato está cheio de irregularidades e produziu “danos ao erário público e enriquecimento ilícito dos envolvidos”.
Há, ainda, outro grave problema em relação a esse episódio do avião que Maiorana Jr. alugou ao seu amigo governador. A aeronave em questão foi trazida do exterior para o Brasil de forma clandestina, sem cumprir as exigências legais, como, por exemplo, o pagamento dos impostos devidos à Receita Federal. Popularmente falando, Maiorana Jr. contrabandeou o jatinho. E isso acabou lhe gerando problemas com a Receita. Tanto que, atualmente, o avião está nas mãos do empresário, mas ele ficou apenas como fiel depositário. Ou seja, não pode vender o bem. E ele ainda foi acusado de ameaçar e chantagear a fiscal da Receita que flagrou suas irregularidades na alfândega. Nada indica, porém, que o empresário esteja muito preocupado com tudo isso.
Milionário, poderoso e amigo de Jatene, ele age com a certeza de que não será devidamente punido. Além disso, não é a primeira vez que a família Maiorana se envolve em contrabando. A história vem de longe.
SÉCULO 19
Na primeira metade do século passado, Belém ainda colhia os frutos do rico ciclo da borracha, que começou no final do século XIX e proporcionou uma transformação na cidade. À época, foram construídos palacetes, igrejas, grandes praças com lagos e chafarizes, calçamento de vias com pedras de lioz (importadas da Europa) e o ajardinamento das avenidas com mudas de mangueira, importadas da Índia. Tudo ao estilo da arquitetura francesa.
Belém era conhecida como a “Paris dos Trópicos” e atraía gente de todo lugar, à procura de oportunidades de crescimento. Naquela época, surgiram algumas fortunas na capital que hoje se encontram na segunda ou terceira geração. Um dos principais produtos de exportação do Brasil era o café. Em Belém, existiam casas de torrefação - na sua maior parte, de fachada - que serviam para escamotear o contrabando. Nesses locais, parte do café era contrabandeada. Além do café, os contraventores também “exportavam” babaçu, cera de carnaúba, pedras preciosas, areia monazítica e vários produtos da Amazônia. No retorno dos navios, os contrabandistas recebiam produtos variados, como carros, bicicletas, rádios, geladeiras, whisky, roupas, tecidos e até armas. Um dos célebres personagens desse mundo de criminalidade era justamente Rômulo Maiorana (veja box ao lado), pai de Rômulo Maiorana Jr., também conhecido como “Rominho”.
O volume do contrabando no Pará era tamanho – envolvendo empresários e políticos –, que chamou a atenção da imprensa nacional da época. O jornal carioca “O Globo” destacou o jornalista José Leal para investigar a fundo essa forma de contravenção no Pará. O jornal publicou uma série de 22 artigos, entre fevereiro e março de 1957, denominada “Um repórter na Rota do Contrabando”. Nas reportagens, o jornalista desnudou as rotas, os esquemas e os mentores do contrabando no Estado. Após intensa investigação, José Leal conseguiu identificar alguns nomes que realizavam esse tipo de contravenção, usando os rios como caminho para escoar o material.
(Diário do Pará)
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