O clima de insegurança que tomou conta de Belém é visto com preocupação por entidades que lutam pela defesa dos direitos humanos. No último domingo (25), um PM foi assassinado. Na noite do dia seguinte (26), um homem suspeito de participar do crime foi morto a tiros dentro de um hospital, em Belém. Já na tarde de ontem, um sargento foi baleado.
Para a advogada e presidente da comissão de direitos humanos da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Pará (OAB), Luanna Thomaz, os repetidos episódios demonstram a fragilidade da segurança pública do Estado. Segundo ela, as características da ação criminosa praticada dentro do hospital muito se assemelham com as da chacina ocorrida nos dias 4 e 5 de novembro de 2014, especialmente pela facilidade de acesso aos locais dos crimes e a presença de pessoas encapuzadas.
Segundo a advogada, a OAB está acompanhando não só as investigações dos crimes como também o que há por trás deles. Além disso, ela afirma que, para que seja rompida qualquer lógica de violência, é preciso que haja celeridade nos processos, como o da chacina que, quase 1 ano depois, ainda não teve punição. Luanna ressalta que é dever do Estado garantir segurança e de toda a sociedade defender os direitos humanos. “Quando é apontado o envolvimento da própria polícia, causa uma profunda insegurança”, pondera.
Iranilde Russo, 64, presidente do Movimento Pela Vida (Movida), explica que muitas famílias buscam o apoio da entidade quando perdem seus entes, vítimas da criminalidade. Porém, muitos desistem diante da longa espera pelo julgamento dos envolvidos.
REFÉM
Em 10 de janeiro de 2005, o filho de Iranilde, o produtor de eventos Gustavo Russo, que na época estava com 27 anos, foi assassinado por um policial ao ser confundido com um assaltante enquanto era feito refém dentro de seu veículo. Ela lembra que o carro foi atingido por 50 disparos de arma de fogo.
Passados 10 anos e 9 meses, o julgamento dos policiais envolvidos ainda não foi concluído. Por outro lado, o Estado nunca faz a reposição financeira, uma vez que a polícia foi responsabilizada pela morte de Gustavo. Ela afirma que a entidade luta contra uma legislação que favorece a impunidade. “Eu vejo os policiais como heróis e como vilões. Se a impunidade prevalece, fica a situação que está hoje: a sociedade amedrontada”, disse.
Deputado teme que Belém seja palco de outra chacina
O deputado Carlos Bordalo (PT), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado (AL) pediu, na noite de ontem, ao presidente da AL, deputado Márcio Miranda (DEM), para que apelasse ao governador Simão Jatene para que tome uma ação enérgica e imediata para acabar com o clima de guerra que se instalou na cidade. “Estamos vivendo num clima de terror generalizado: de um lado, facções criminosas abatem policiais. De outro, milicianos paramilitares revidam e invadem hospitais para matar acusados desses crimes”, disse, lembrando também da tentativa de assassinato de mais um policial, na tarde de ontem.
“A continuar nesse ritmo, há o risco de se repetirem os episódios lamentáveis de 1 ano atrás, quando várias pessoas (10 vítimas) foram assassinadas na periferia de Belém, após a morte de um militar”, coloca.
Para o deputado do PT, o governador precisa vir a público para dar a garantia de que algo está sendo feito e que as forças de segurança pública estão, de fato, agindo. “Vários bairros estão sob toque de recolher com medo da caçada desenfreada e covarde dos milicianos.”
Bordalo não entende como o governador deixou que a situação chegasse a esse ponto. Ainda pior, se recusa a pedir ajuda das forças armadas. Ele lembra que, nos próximos dias 4 e 5, completa um ano da chacina ocorrida em Belém após o assassinato de Antônio Marco da Silva, o cabo Pet. Segundo o parlamentar,esse fato foi o prenúncio dos dias que o belenense vive hoje. “Até hoje não vimos ninguém preso. Não sabemos o resultado das investigações, nem de quem matou o policial nem de quem chacinou aquelas pessoas.”
O deputado Edmilson Rodrigues também cobrou do Governo do Estado resposta para a ação cometida por homens encapuzados que invadiram o hospital. Para Edmilson, a ação caracteriza extermínio e o Governo tem de esclarecer quem foram os autores. “O Governo do Estado precisa ter humildade em admitir que se trata de crime de extermínio e, por isso, chamar uma força-tarefa com apoio da União”, falou, no plenário da Câmara dos Deputados. (Diário do Pará)
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