Já tendo registrado temperaturas de 36,4 graus em outubro deste ano, o clima extremamente seco deverá permanecer em quase todo o Pará, pelo menos até janeiro do ano que vem. É o que diz o Instituto Nacional de Meteorologia no Pará (Inmet), acumulando indicadores climáticos observados a partir de Belém desde 1897: a quantidade de chuvas em todo o Estado poderá ficar até 70% abaixo do normal nos próximos três meses, e o motivo é o fenômeno climático El Niño, que este ano bate recordes climatológicos.
Apesar de prevista para praticamente todo o Pará, a estiagem deve afetar mais criticamente a região do Arquipélago do Marajó, onde as mudanças começaram a ser observadas já nos meses de junho e julho. Apenas a região que envolve os municípios de Piçarra, Parauapebas e Conceição do Araguaia, no sudeste do Pará, está com chuvas acima do normal.
À frente da coordenação do Inmet-Pará há 12 anos, o meteorologista José Raimundo Abreu de Sousa alerta: as condições climáticas do El Niño poderão ser favoráveis ao surgimento de focos de incêndio e queimadas no Pará -e a população deve estar atenta aos cuidados necessários, principalmente nas regiões do interior.
Confira entrevista cedida por Souza ao DIÁRIO:
P: Como está o clima do Estado? Estamos mesmo vivendo um período atípico?
R: Neste ano está se verificando uma anormalidade no regime de chuvas e nas temperaturas em todo o Estado do Pará. De Norte a Sul, de Leste a Oeste, diminuiram muito as chuvas. Em alguns locais elas não atingiram nem 10% da média esperada. No mês de setembro, choveu em Belém 30% abaixo da média e outubro já está com 70% a 80% abaixo do esperado. A média para Belém em outubro é de 114,4 milímetros [de chuva por metro quadrado], e até hoje só choveu 23 milímetros, o que caracteriza uma condição atípica. A população da capital tem sentido, com maior frequência, temperaturas mais altas, que estão sempre acima de 34º e que já chegaram até a 36,4º em outubro. Isso não acontecia há pelo menos nos últimos 5 ou 6 anos.
P: Houve recorde de temperatura nos últimos meses?
R: Sim. Em outubro chegou a 36,4 graus, o que nos anos anteriores estava sempre se mantendo em torno de 34 e até 35 graus. E a frequência dessas temperaturas nos dias de outubro também cresceu. De modo geral, a gente pode dizer que todo o Pará está sofrendo a estiagem devido ao El Niño. A seca é grande. No Sul do Estado, onde começaria a chover no final de setembro, até agora estamos com baixos índices pluviométricos [a quantidade de chuva por metro quadrado]. Essa situação já foi verificada em Conceição do Araguaia, Redenção, São Félix do Xingu e Santana do Araguaia.
P: Tudo isso ocorre apenas por causa do El Niño?
R: Sim. O fenômeno é caracterizado por um aquecimento anormal nas águas do Pacífico Equatorial. Da costa da América do Sul até próximo à Austrália se estende uma faixa de água quente, que tem como característica reduzir as chuvas em parte da Região Norte e Nordeste do Brasil e aumentar as chuvas no Sul. O que ocorreu é que ele começou a partir de maio e junho, se consolidando a partir de agosto, e com isso tem causado altas temperaturas e pouca nebulosidade, já que ele inibe a formação de nuvens. Consequentemente, diminuem as chuvas. No Sul do Pará, as chuvas que deveriam ter começado em setembro, vão começar só agora em novembro. Ou seja, há um atraso de 45 a 60 dias no regime pluviométrico do Estado. Em Belém, o nosso período chuvoso, com certeza, também estará comprometido, porque, na maior parte do Estado, os índices vão ficar abaixo do normal.
P: Até quando deverá ir a estiagem que estamos vivendo?
R: Estamos prevendo até janeiro uma estiagem ainda forte, com redução de chuvas, principalmente na Ilha do Marajó. A região será muito prejudicada na questão da pecuária. É muito possível ter mais mortes de gado por falta de chuvas, já que na Ilha do Marajó as chuvas diminuíram já no mês de junho para julho. Com isso, o Marajó passará por cinco a seis meses de estiagem, ao invés dos três meses normais que costuma enfrentar. Com certeza isso vai impactar na agricultura e na pecuária da região. Já em Belém, os meses mais secos eram outubro e novembro, mas este ano esse período vai se estender até final de dezembro, início de janeiro.
P: Então o Marajó será a região mais afetada pela seca?
R: Todo o Estado do Pará vai estar em um período seco com uma variação de 10% a 70% menos chuvas no trimestre entre novembro, dezembro e janeiro. A única região no Pará que está com chuvas acima do normal é a que envolve os municípios de Piçarra, Parauapebas e Conceição do Araguaia. Toda a região, principalmente o Marajó, está de 50% a 60% abaixo do normal. No Sudoeste do Pará estamos com chuvas de 30% a 40% abaixo do normal, e Belém com índices de 40% a 50% abaixo do normal. O mês de dezembro será de poucas chuvas em quase todo Estado. É muito provável que estejamos com altas temperaturas e céu somente nublado, com poucas chuvas, no Natal e no Ano-Novo deste ano.
P: Choverá com menos frequência ou choverá em menor quantidade?
R: É muito provável que fique em forma de pancadas de chuva. O que começaria em dezembro será só para janeiro.
P: Essa condição climática poderá favorecer queimadas?
R: Com certeza, em decorrência das altas temperaturas e da umidade, que está ficando baixa. As temperaturas estão a 35 graus aqui em Belém e 37 graus em algumas regiões do Estado, como em Altamira e Santarém. Então, o clima se agrava nessas regiões, principalmente no Sul do Pará, pela umidade baixa. A população deve se preocupar em fazer o máximo possível para evitar queimadas. Com 34 anos de experiência como meteorologista, posso dizer que está crítica a situação para quem cria e planta no Estado, por causa das altas temperaturas.
P: Qual é a previsão das chuvas para esses próximos meses em Belém?
R: Em outubro a média era de 114,4 milímetros, mas até hoje [28/10] só choveu 24 milimetros. Em novembro, a média é de 118 milímetros, mas como deve haver redução de 40%, também ficará abaixo da média. Quando o índice fica abaixo da média, diminui o número de dias com pancadas de chuva. No mês de outubro só tivemos 7 dias com alguma pancada de chuva fraca. Para dezembro, que geralmente é um mês de transição, deve chover um pouco mais do que novembro, mas, mesmo assim, vamos ficar abaixo da média.
P: Você acredita que esse cenário possa ter alguma influência do desmatamento?
R: Não. O El Niño acontece desde quando o Brasil foi descoberto. Começou-se a estudá-lo agora, a partir de 1985, mas ele já existe há séculos. O desmatamento na Amazônia não tem a ver com essa questão. O que acontece com o fenômeno El Niño é que as águas do pacífico equatorial estão de 2 a 3 graus mais quentes que o normal. E todas as vezes que acontece esse fenômeno há uma redução de chuvas aqui, além de chuva extrema no Sul do país. É um impacto direto das condições oceânicas aqui na região. Então, temos certeza que novembro será bem seco, e isso deve se estender até dezembro. As altas temperaturas vão continuar acontecendo e a média esperada na Região Metropolitana de Belém (RMB) é de 35 graus. Ainda assim podemos ter recorde porque já registramos 36,4 graus em outubro, sendo que, de 2010 para cá, nenhuma temperatura ultrapassou os 36 graus. Os últimos El Niños mais fortes, que causaram fortes reduções de chuva aqui no Estado do Pará, aconteceram nos anos de 1982 e 1983, depois em 1997 e 1998 e, por último, em 2009.
(Cintia Magno/Diário do Pará)
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