Aproximadamente 25 mil pessoas estiveram no cemitério Santa Izabel na manhã de ontem, feriado do Dia de Finados. Carregando flores, velas e água, parentes e amigos fizeram visitas e homenagens nos 80 mil túmulos do cemitério. Sentada em um dos cantos do túmulo da família, a aposentada Onéia dos Santos Ribeiro, 76, lembrava dos momentos felizes vivenciados ao lado da mãe, de três irmãos e da tia, ambos enterrados no mesmo local. “O dia de finados é especial porque consigo vir sem medo e rezar por eles”.
Mesmo diante da agitação que tomava conta dos corredores do cemitério, toda a concentração da senhora se voltava para o terço rezado quase em silêncio. “Pela vida que tiveram aqui na terra, tenho certeza que estão bem onde quer que estejam”, rezava. Reunindo toda a família, o cozinheiro Luiz Borges, 56, fez questão de enfeitar o túmulo do filho com flores. Com as mãos na terra da sepultura, enraizava uma a uma. “Com certeza ele está vendo essa homenagem, onde quer que esteja”.
Josephina
Ainda que nenhum parente da moça estampada no topo do túmulo branco fosse identificado no Cemitério de Santa Izabel, a história por trás de Josephina – única identificação cravada na lápide – levou dezenas de pessoas a acender velas em sua homenagem.
Rezando pela sua alma, o aposentado Amaral Emernegildo, 72, conta lenda que já faz parte do imaginário paraense. “Ela pega o táxi a cobrar e, quando o taxista chega em casa, ficava sabendo que ela já tinha morrido. Escuto essa história desde molecote”, recorda. Convencido de que orações à moça que morreu aos 16 resultam em graças, Amaral mantém rotina de homenagens. “Na certa, mal não faz a ninguém”.
Homenagens no Soledade, apesar do mato e do descuido
Centenas de pessoas também visitaram ontem o histórico Cemitério da Soledade, construído em 1850 e desativado já há 135 anos. Ainda no início da manhã, o calor que emanava das velas já se misturava ao do sol forte, e o clima era de homenagens. O piso está tomado por uma espessa camada de cera preta: a altura das chamas dá a dimensão da dedicação de pessoas comuns por personagens que, anos atrás, viveram em terras paraenses.
Rodeado por velas e fitas de Nossa Senhora de Nazaré, um dos túmulos tem um identificação muito breve: ‘Preta Domingas’. É a escrava que morreu em decorrência dos maus-tratos dos seus patrões, e que, em 25 de março de 1871, foi enterrada no local. “Ela é um espírito de luz”, diz a autônoma Maria da Conceição Farias, 61 anos.
Devoção
Dona Maria atribui uma graça a Domingas. Por isso, não deixa de prestar homenagens no Dia dos Finados nem um ano sequer. “Perdi meu pai aos 14 e tive que criar sete irmãos. Desde essa época, venho aqui pedir para a vida melhorar”. Com os irmãos hoje formados e com a vida estruturada, Conceição vai às lágrimas. O sentimento é de gratidão. “Todo ano trago um pacote de velas para ela e agradeço por hoje viver bem com minha família”.
Devota das almas, como ela mesma se identificou, a enfermeira Júlia Castro, 61, presta homenagens toda segunda-feira. “Venho rezar pelas almas, mas hoje é especial”, diz, deixando velas no túmulo do ‘Menino Zezinho’, filho de escravos a quem muitos creditam milagres. Mas dona Júlia não deixou de reparar nas condições do cemitério, que é tombado. “É muito mato. Um descaso absurdo”.
(Cintia Magno/Diário do Pará)
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