Em abril deste ano a ONG Observatório do Clima já havia antecipado a redução da vazão dos rios e consequente impacto nos grandes empreendimentos hidrelétricos nacionais. Na Amazônia, região eleita pelo governo a nova fronteira da hidroeletricidade no país, as quedas também seriam significativas: a vazão de Belo Monte (Pará) cairia de 25% a 55%, a de Santo Antônio (Rondônia), de 40% a 65%, e a da usina planejada de São Luís do Tapajós (Pará), de 20% a 30%. Furnas, Itaipu, Sobradinho e Tucuruí – teriam reduções de vazão de 38% a 57%, aponta.
O coordenador do grupo que analisou os cenários para o capítulo sobre Energia, professor Roberto Schaeffer, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, disse à Agência Estado que o maior gargalo, principalmente nas hidrelétricas localizadas na Amazônia, é que elas não têm reservatórios. Com isso, não têm estoque de água na seca.
INSUSTENTABILIDADE
“Essa vulnerabilidade que a mudança climática traz talvez nos faça repensar se não é melhor voltar a ter hidrelétricas com reservatório”, adverte o professor.
Hoje o Brasil ainda é altamente dependente da água para a geração de energia elétrica. Cerca de 80% vêm de hidrelétricas. Com os cenários previstos no Brasil – 2040, o país pode ficar ainda mais dependente das usinas termelétricas. O estudo prevê um aumento de geração das usinas eólicas no Nordeste e da capacidade de geração de energia solar no Sul e Sudeste do país. Mas, de acordo com o levantamento, como esse tipo de geração é intermitente, se a capacidade das hidrelétricas for insuficiente, as usinas térmicas serão uma saída.
“Mas pode ser [geração] a etanol, a bagaço de cana, a biomassa, não a carvão. O ideal é ter diversidade. E planejar a expansão do setor incorporando a variável das mudanças climáticas. Não podemos mais só olhar para as séries hidrológicas do passado para prever o futuro, porque ele será bem diferente”, sugere Roberto Schaeffer.
“O planejamento energético precisa ser revisto urgentemente à luz dos dados do ‘2040’, sob pena de a sociedade enterrar bilhões de reais em projetos que não se pagam”, adverte Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima.
(Luiza Mello)
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