Na madrugada de ontem, a calçada de concreto da Unidade de Saúde de Icoaraci serviu de cama para quem necessitava marcar consulta. A doméstica Suelen Barbosa, 27 anos, e seu filho, Leandro Augusto, 12, chegaram às 23h da terça-feira (10). Assim que o sono bateu, Suelen tirou da bolsa um lençol fino e esticou no chão. Depois, pegou um cobertor para amenizar o frio. Para eles, a noite no chão frio seria longa, já que as senhas só seriam distribuídas na manhã seguinte.
Suelen relata que já havia 18 pessoas na sua frente. Ela ficou temerosa de passar a noite no hospital, administrado pela Prefeitura de Belém, e, mesmo assim, ficar sem ser atendida, por falta de senha. “Já é a segunda vez que preciso dormir na fila para pegar ficha. Trouxe meu filho porque não tem ninguém para ficar com ele”, disse ela. “O posto deveria dar mais fichas”. Às 5h, os funcionários distribuíram 25 fichas para clínico geral e duas para dentistas. Suelen conseguiu pegar para as duas especialidades. Mas nem todos os pacientes tiveram a mesma sorte.
O casal Nazareno Ramos, 56, e Joana do Espírito Santo, 55, ficou sem senha. Prova indiscutível de que ter acesso à saúde no Estado está cada vez mais difícil para a população do Pará. “Chegamos aqui às 4h da manhã, correndo risco de sermos assaltados. Nem assim, fomos atendidos. É muita humilhação”, reclamou Nazareno. “A Prefeitura precisa aumentar o número de fichas.
A filha do casal sente fortes dores no estômago e eles não sabem do que se trata. A preocupação dobrou, pois é a segunda quarta-feira que vão até a Unidade de Saúde e não conseguem atendimento. “Isso é um absurdo. O jeito é vir ainda mais cedo e passar a madrugada toda aqui”, declarou Joana.
MAIS SOFRIMENTO
Foi exatamente o que fez o primeiro da fila, Pedro Macedo de Oliveira, 63. O pedreiro marcou lugar na frente do Posto de Saúde às 15h de anteontem, e lá ficou até o amanhecer. O sacrifício foi para se consultar com um clínico geral e realizar os exames de rotina. “Quarta-feira passada, eu cheguei às 5h, mas não consegui senha. Só pega quem dorme aqui”, afirmou.
A doméstica Rosália Monteiro, 63, pediu para uma amiga guardar o seu lugar na fila. Caso contrário, não conseguiria ficha. Ela destacou outro grave problema no sistema público de saúde: o tempo que os pacientes têm de esperar até serem atendidos pelos médicos. “Nem sempre os médicos estão no hospital. A ficha só garante a consulta. Mas isso pode demorar uma semana ou até 1 mês”, disse. Procuradas pelo DIÁRIO, as Secretarias de Saúde da Prefeitura de Belém e do Governo do Estado não deram retorno até o fechamento desta edição.
(Renata Paes/Diário do Pará)
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