Fazer compras em Castanhal era parte da rotina da família Noguchi. Era mais tranquilo para o casal de empresários Etsuko e Hironobu do que enfrentar o trânsito da capital. Na tarde da última quinta-feira (12), não foi diferente. Acompanhado da irmã Emiko Shiguetomo e da esposa, Hironobu, Etsuko voltava para o município de Santa Izabel pela BR-316, quando uma tragédia aconteceu. O trio estava no local errado, na hora errada. O veículo em que eles estavam foi abordado por um grupo criminoso, que escapava de uma troca de tiros com policiais militares do Complexo Penitenciário de Americano, onde tentavam resgatar vários presos.
Hironobu não teria cedido ao assalto. Os bandidos não perdoaram: atiraram contra o carro. Em seguida, as vítimas foram arrancadas de dentro do veículo. Etsuko e Emiko foram assassinadas. Hironobu segue na UTI de um hospital particular devido a um tiro que levou no abdômen. O quadro de saúde de Hironobu é considerado estável.
Sepultamento
A morte das japonesas abalou a comunidade oriental do município, formada por 100 famílias. Familiares e amigos prestaram as últimas homenagens durante o velório que aconteceu ontem, na Associação Nipo Brasileira de Santa Isabel e Santo Antônio do Tauá. Após a perícia feita em Belém, os corpos foram liberados por volta das 22h de quinta-feira pelo Instituto Médico Legal (IML). O sepultamento ocorreu na tarde de ontem, em um cemitério municipal de Santa Izabel.
Etsuko, Emiko e Hironobu eram isseis (nascidos no Japão e migrados para o Brasil). Vieram em busca de melhores condições de vida, em meio aos conflitos da época, mas nunca esqueceram suas raízes. Etsuko tinha 74 anos e era casada com Hironobu há mais de 50. O casal tinha 8 filhos. Parte deles ainda mora no país de origem e deve chegar na próxima semana. Os Noguchi também possuíam grande comércio na estrada de Mosqueiro, conhecido como fruteira rural, há pelo menos 20 anos. A comunidade preferiu manter o silêncio como forma de respeito. Inclusive o Festival do Sushi, que aconteceria hoje, foi cancelado “por força maior”, conforme mostrava o cartaz do evento.
População vive sob o domínio do medo
A ação criminosa que resultou na morte das japonesas assustou os moradores da Vila de Americano, onde está localizado o Complexo Penitenciário. Luiz Fernando mora há 30 anos naquela região e conta que já ouviu e viu coisas que teme em relatar. “A gente vê muita coisa que não deveria nem ver. O tiroteio é constante. Assim como elas foram vítimas, qualquer um de nós poderia ser também”, comentou Luiz.
Um comerciante, que preferiu não revelar o nome por medo de ameaças, se surpreendeu. “Se eles têm coragem para enfrentar policiais, são perfeitamente capazes de chegar aqui e render todo mundo. Hoje, os bandidos estão muito ousados”, desabafou.
A Polícia Civil de Santa Izabel investiga o caso. Até o momento, os criminosos que protagonizaram a tentativa de resgate não foram capturados.
De acordo com a assessoria de comunicação da Superintendência do Sistema Penal (Susipe), o Serviço de Inteligência já identificou os presos que seriam resgatados pelo bando. A Corregedoria da Susipe também apura administrativamente a tentativa de fuga, porém, não foi divulgado o andamento do processo. O Batalhão Penitenciário permanece no Complexo de Santa Izabel.
(Michelle Daniel)
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